Psicoterapia, a importância de cuidarmos da nossa saúde mental

Hoje falamos sobre psicoterapia e saúde mental. Decidi trazer um tema que me é familiar, já que eu própria sou psicóloga, e que acho relevante desmistificar, contribuindo para que a psicoterapia seja encarada como uma forma natural de cuidarmos da nossa saúde mental.

Ainda existe algum tabu em falar deste tema, seja porque existe o mito que só vai ao psicólogo quem tem um “problema grave” ou porque ainda não é assumido, na nossa sociedade, como um compromisso que faz parte de uma rotina saudável, tal como ir ao ginásio ou a qualquer outro sítio, onde o objectivo seja cuidarmos de nós, por dentro e por fora.

Vamos ao médico por rotina ou para tratar da nossa saúde a vários níveis, ao nutricionista para cuidarmos da nossa alimentação, ao spa ou ao osteopata para fazer uma massagem ou curar algumas dores e outras maleitas, mas descuramos a nossa saúde mental, como se ela não tivesse a mesma (ou mais) importância do que tudo o resto.

É neste sentido que queremos ajudar a desmistificar este assunto e normalizar a psicoterapia como uma componente integrante do cuidado da nossa saúde, e não só quando estamos num momento de crise.

Contamos com a ajuda da Psicóloga Clínica Mafalda Galvão Teles para nos ajudar a esclarecer algumas questões.

 

Em que momento é que as pessoas recorrem à psicoterapia?

A maior parte das pessoas que procuram apoio psicológico fazem-no num momento de crise. Normalmente a tomada de decisão de procurar um psicólogo ou um psicoterapeuta surge numa altura em que a pessoa já não se sente capaz de lidar com a sua situação presente ou desenvolveu sintomas de ansiedade, depressão ou outro tipo de quadro psicopatológico.

Os eventos precipitantes da crise podem ser variados como o fim de uma relação amorosa ou um processo de divórcio, uma situação de desemprego, conflitos no trabalho, morte de alguém significativo, problemas familiares, entre outros.

Porém, muitas vezes as pessoas chegam ao consultório do psicólogo/psicoterapeuta com um pedido específico e acabam por, ao longo do processo terapêutico, aperceber-se de que há outras questões que também precisam ou desejam trabalhar.

Apesar daquilo que motiva as pessoas a iniciar uma psicoterapia ser maioritariamente situações presentes e o sentimento de incapacidade de lidar com essas situações, a psicoterapia também pode trazer enormes benefícios para quem deseja conhecer-se melhor ou até mudar algumas coisas em si próprio e nas suas relações.

Muitas pessoas podem não precisar de terapia mas certamente poderiam retirar grandes benefícios de passar por um processo terapêutico. A psicoterapia pode ser utilizada como um espaço de crescimento e de mudança.

 

Em que consiste a psicoterapia?

A psicoterapia é um espaço onde podemos partilhar pensamentos, sentimentos e experiências sem sermos julgados e sem recebermos respostas imediatas ou soluções rápidas para os nossos problemas, como acontece frequentemente quando partilhamos algo com os nossos amigos ou familiares. Na nossa esfera pessoal, a maior parte das pessoas tem algo a dizer quando lhes expomos um problema ou uma dificuldade “Se fosse eu fazia assim…”, “Acho que devias fazer desta forma…”.  Na psicoterapia, o objectivo é a própria pessoa ser capaz de olhar para dentro de si e chegar às suas próprias conclusões. O psicoterapeuta está presente para a ajudar a pensar de outras formas, a questionar-se e a tomar as suas próprias decisões. O psicoterapeuta é imparcial e faz uma aliança com o paciente, não tendo já uma ideia pré-concebida do mesmo ou do meio que o rodeia. Isto permite que o consultório seja um ambiente seguro e livre de julgamentos que tem a mais valia de ser ainda totalmente confidencial.

Não existe mais nenhuma relação onde a outra pessoa esteja totalmente focada em nós e o seu único propósito seja ouvir-nos, compreender-nos e ajudar-nos.

 

Algumas razões para fazer psicoterapia mesmo que não sinta que tem um problema urgente ou não apresente nenhum quadro psicopatológico:

Aumenta a capacidade de insight e de mentalização. Com a ajuda do psicoterapeuta podemos compreender o porquê das nossas dificuldades, medos, inseguranças e padrões comportamentais e desenvolver uma maior capacidade de mentalização dos nossos estados emocionais.

Pode ajudá-lo a melhorar a qualidade das suas relações. A psicoterapia não só nos permite conhecer melhor a nos próprios, compreender o porquê de nos sentirmos de determinada forma, de termos determinados comportamentos ou dificuldades como também nos permite conhecer melhor o outro. Ao nos conhecermos melhor a nós próprios podemos compreender melhor a dinâmica das nossas relações e deixar-nos mais abertos a compreendermos o outro e olhar para ele como realmente é, sem projectarmos coisas nossas no outro.

Pode aprender a lidar melhor com os conflitos. O conflito faz parte das relações (sejam estas familiares, amorosas, de amizade ou profissionais) e é inevitável. Ao tentar evitá-lo e ao não entrar em contacto com os sentimentos de zanga, raiva ou frustração que este possa despoletar está a abrir a porta à doença/somatização. A psicoterapia pode ajudá-lo a lidar com estes sentimentos e desenvolver ferramentas internas para lidar com situações de conflito.

A psicoterapia pode melhorar a qualidade de vida. Para além de aliviar o sofrimento emocional a psicoterapia também o pode ajudar a melhorar alguma sintomatologia física. A não mentalização e não expressão dos afectos pode levar a uma somatização, ou seja, ao desenvolvimento de sintomas físicos sem causa aparente como dores de cabeça/enxaqueca, problemas de pele, problemas gastrointestinais, problemas respiratórios, entre outros. Quando se passa por um processo terapêutico normalmente esta sintomatologia diminui e a qualidade de vida melhora significativamente.

Promove o crescimento e a mudança positiva. Através de um processo terapêutico podemos identificar melhor aquilo que gostaríamos de mudar de forma a nos conseguirmos aproximar mais de quem gostaríamos de ser.

Os efeitos da psicoterapia são duradouros. O trabalho realizado durante a terapia consolida-se ao longo do tempo. Durante o processo terapêutico dá-se uma internalização da relação terapêutica o que permite à pessoa continuar a sentir resultados/fazer mudanças internas mesmo após o término da terapia. Continuamos a utilizar os recursos que desenvolvemos na terapia ao longo da nossa vida (na forma como pensamos, como falamos, como expressamos o que sentimos, como nos relacionamos com os outros).

Como escolher um psicoterapeuta?

A relação terapêutica é o factor mais importante da psicoterapia. É através da aliança terapêutica que é possível trabalhar, dentro de uma relação segura e de qualidade, padrões relacionais aprendidos ao longo da vida. Por esta razão, a escolha do terapeuta é de enorme importância para os resultados da terapia.

Como tal, há alguns factores que deve ter em conta ao marcar uma primeira sessão:

  1. Deve certificar-se de que o psicoterapeuta é credenciado. Ou seja, que tem formação em psicoterapia por uma sociedade psicoterapêutica reconhecida. É também preferível ser um psicoterapeuta recomendado por alguém da sua confiança, como por exemplo pelo seu médico de família ou por pessoas que trabalhem na área da saúde mental.
  2. Também o poderá ajudar informar-se sobre qual os tipos de psicoterapia disponíveis e se deseja fazer uma psicoterapia individual ou de grupo. Existem diversas orientações teóricas como a Psicanálise e a Psicoterapia Psicanalítica, a Psicoterapia Cognitivo-comportamental, a Terapia Sistémica, o Psicodrama, a Terapia Interpessoal, entre outras. Deve ver com qual delas se identifica mais ou se adequa melhor às suas necessidades ou às questões que deseja trabalhar.
  3. Mais importante do que a orientação do psicoterapeuta é a empatia que se cria entre psicoterapeuta e paciente. Qualquer tipo de psicoterapia poderá ajudá-lo se a relação terapêutica for de qualidade e o fizer sentir-se compreendido e aceite. Se sentir que não tem empatia com o psicoterapeuta o melhor será procurar outra pessoa com quem se sinta mais confortável.

 

 

A Dra Mafalda é Psicóloga Clínica e Psicoterapeuta Psicanalítica Relacional em formação e dá consulta em consultório privado e no Centro Clínico dos Sams em Lisboa.

Escrito por: Francisca

Alfacinha e fã assumida da sua cidade. Nasceu e cresceu em Lisboa e embora adore sair e viajar, gosta sempre de voltar. Gosta de dias de sol, flores campestres, coisas imperfeitas e mergulhos no mar. Ler mais.

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