Uma casa cheia de crianças e uma rede na sala

Tiveram de esperar um ano para conseguirem as chaves desta casa. Por muito fácil que possa parecer a quem está de fora, apenas quando entramos em casa da Maria e nos sentamos a conversar sobre o que aconteceu, há quase dez anos, percebemos que todas as histórias têm caminhos difíceis. Entre um café feito numa cafeteira tradicional e uma rede entre a sala de estar e a de jantar, a Maria contou-nos como ela e o marido, com a ajuda de alguns amigos, conseguiram remodelar a casa velha e decrépita para onde se mudaram, mas que já mostrava todo o potencial que agora nos alimenta os sonhos.

A Maria conta-nos um bocadinho da história: “Esta casa tem uma história muito engraçada, pois só  cá entrámos pela primeira vez no dia em que o banco veio fazer a avaliação. A minha cunhada morava no andar de baixo e há muito tempo que éramos apaixonados pela casa dela. Assim que soubemos que o andar de cima  tinha ficado livre – estava arrendada há muitos anos – fizemos uma proposta à dona da casa, que não morava cá. Ela aceitou embora nunca tivesse pensado em vendê-la. Ficámos “amigas” só por telefone e fizemos tudo baseado apenas na confiança e na palavra. Começámos a fazer as obras- já sabíamos que estava em muito mau estado-   sem ter nada assinado  – a dona da casa enviou a chave pelo correio. No dia da escritura caímos nos braços uma da outra (tinha sido muito complicado aprovarem-nos o crédito e ela vibrou muito com isso também. Queria mesmo que a casa fosse para nós!) Ainda hoje trocamos emails.”

Agora que são 7 vontades debaixo deste tecto, é fácil perceber de onde vem toda esta “confusão” visual, mas que na verdade é o traz personalidade a esta casa. Começamos pela cozinha, onde todos os armários foram reaproveitados e que é contígua a uma marquise onde, todos os dias ao pequeno-almoço, podem espreitar se os frutos da horta lá em baixo estão de boa saúde. Sim, porque apesar de estarmos num apartamento, existe um espaço “comunitário” atrás do prédio, onde mantêm uma horta pequenina, um espaço de refeições e o atelier do Francisco, marido da Maria.

“O facto de a casa estar “podre” e termos sido nós e os nossos amigos a arranjar, pintar etc ,  fez com que a sentíssemos  muito mais “nossa” e os nossos amigos também sei que se sentem “em casa”  cá em casa mas claro, é um processo sem fim e acho que nunca estará definitivamente pronta. Mas já há muitos anos que está completamente alinhada com a nossa familia. Não há sitio no mundo onde me sinta mais feliz.”

Passamos para o quarto principal que também tem um pequeno “reaproveitamento” de uma antiga varanda. Agora é espaço de arrumações e tem um pequeno espaço de trabalho de pintura e exposição de obras em construção. No quarto existe uma máquina de costura maravilhosa, onde. a Maria nos segreda que já fez parte das roupas dos filhos.

Como conseguem conjugar o conceito de casa, atelier e escritório próprio?

Esta conjugação é uma novidade na nossa vida. Há 15 anos – desde que casámos – que trabalhamos os dois das 9h-17h curiosamente, de há um ano para cá a vida deu uma volta tal que estamos a trabalhar em casa. Claro que desde sempre que é atelier do Francisco, embora até agora tivesse sido só pós-laboral. No entanto, os espaços que usamos para atelier e escritório não são espaços que usemos para mais do que isso, por isso tem sido uma conjugação muito fácil e natural.

 

O corredor que corre a casa de uma ponta à outra está habitado por uma estante muito antiga, que já verga o peso dos anos e das centenas – atrevemo-nos a dizer – de livros e CDs de música. Outro dos gostos da família que adora ter banda sonora em qualquer sítio.

No primeiro quarto dos miúdos, a nossa nostalgia obriga-nos a querer ser crianças novamente, só para dormirmos no piso elevado de camas que lá está. Também este foi feito pelos dois, respeitando a naturalidade dos materiais e permitindo – para além de um piso só para sonhar – mais espaço em baixo para brincarem. O quarto dos rapazes tem um beliche e posters nas paredes, assim como todo um arsenal de música, jogos de consola e pranchas de surf. Boys will be boys, certo?

Mas é na sala que conseguimos ver perfeitamente a confluência de todos os estilos que povoam esta casa. Seja pelos móveis que foram oferecidos por amigos, a cadeira corrida que era da avó da Maria, a peça de arte a secar em cima da mesa de jantar ou a rede onde nos apetece dormir uma sesta. Tudo respira tranquilidade e boas energias. O cantinho das plantas e da música, as portadas mais escuras, o quadro antigo por cima da secretária, que é um dos objectos queridos desta casa.

Este também foi o sítio escolhido para receber “A Cena”, como nos conta a Maria -“A “Cena” foi uma forma que encontrámos de conciliar o nosso gosto em receber, com o gosto de conhecer pessoas e também uma forma de fazer algum dinheiro extra. E o que é “a Cena”? há 6 ou 7 anos começamos a organizar  jantares  pagos cá em casa, Começou com a nossa rede de amigos, todas semanas recebiam uma ementa para sábado com alguns pratos à escolha, só tinham que escolher, marcar e trazer os amigos que quisessem (máximo 8, salvo algumas excepções – chegámos a ter 17 pessoas numa Cena).  A partir do momento que vinham uma primeira vez, os amigos dos amigos passavam a fazer parte da lista que recebia a ementa semanal e podiam marcar. Numa altura da nossa vida em que fazíamos contas (muitas!) para pagar a água e a luz foi uma solução espectacular, conseguimos pagar  contas e ao mesmo tempo receber amigos, conhecer pessoas e passar serões muito divertidos! Com o nascimento do Lucas a Cena ficou interrompida mas claro, assim que ele durma bem vamos regressar!”

 

Estão rodeados de objectos especiais, sejam as obras do teu marido, a mobília herdada ou objectos que foram adicionando à vossa história, qual deles te traz mais alegria?

Não consigo, de todo, escolher um objecto mais especial que outro, sou muito desapegada de objectos felizmente. No entanto, adoro tudo o que temos em casa, sobretudo porque quase tudo o que cá temos foi herdado e tem uma história para contar e adoro isso. Tenho muitas coisas da minha avó, de uma casa que tinha no Alentejo, muitas coisas do meu sogro que já  cá não está, quadros que o Francisco trocou com amigos artistas por este mundo fora,  outras coisas vieram dos nossos quartos de adolescente – como por exemplo a estante gigante de livros e cd’s ( e respectivos livros e cd’s onde tanto eu como o Francisco gastávamos as nossas semanadas durante anos a fio). Olhando bem, na sala, tirando as almofadas e o tapete é tudo herdado, e é isso: tudo tem  uma história para contar.

Confessa-nos uma coisa que só fazes em casa.

Não há nada que só faça em casa mas talvez não me lembre de estar esparramada no sofá com uma manta a ler ou a ver um filme em casa de outras pessoas ou em casas de férias. E cozinhar, apesar de  cozinhar em qualquer sitio, mas gosto muito mais de cozinhar em casa, porque tenho a horta, mais matérias primas e adoro a nossa cozinha.

 

Obrigada Maria pelo óptimo café e pela boa disposição com que nos recebeste, que esta seja sempre a casa onde mora a vossa história!

 

Escrito por: Francisca e Joana

Somos a Joana e a Francisca, alinhamo-nos na simplicidade das coisas e complementamo-nos nas diferenças do dia-a-dia. Queremos partilhar o que nos inspira e o que nos leva a ser mais felizes. Acreditamos que esta partilha tem também o poder de inspirar o mundo a fazer o mesmo. Ler mais.

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