Depois dos filhos, o que muda?

Recuperar a intimidade depois dos filhos pode ser uma tarefa difícil. Há a questão do tempo (ou a falta dele), do cansaço, da disponibilidade, do bem-estar individual.

Esta é uma questão de certeza familiar para a maior parte dos casais e é urgente falar mais nela, desmistificar certos aspectos e encontrar estratégias que ajudem a restabelecer a conexão entre o casal depois dos filhos.

É fácil arranjar desculpas e adiar esta reconexão. “Depois de parar de amamentar”, “quando ele dormir a noite toda”, “quando ele sair do nosso quarto”, “quando estiver mais em forma”. E assim se passam meses (às vezes, anos). Hoje não, amanhã sim, deixar a preguiça e o cansaço instalarem-se, depois de dias preenchidos de trabalho e ainda tarefas em casa e cuidar dos filhos – o caminho mais fácil. 

 

Como podemos, então, dar a volta a esta situação?

 

Date night, porque não?

Se houver essa possibilidade, pode ser uma óptima forma de voltar a criar momentos só para o casal. Se houver avós ou tios disponíveis para ficarem com os miúdos, melhor.

Nas rotinas do dia-a-dia nem sempre é fácil arranjar tempo para o casal e quando não se sai do jantar-banho-cama pode ser difícil ter energia para muito mais. Por isso, pode ser importante arranjar esse tempo, colocar na agenda e criar esse momento em que física e emocionalmente estão só os dois. 

Este pode não ser o único caminho ou sequer um caminho para alguns casais, no entanto pode ser um bom início para uma reaproximação ou para, de vez em quando, nos lembrarmos como era isto antes dos filhos. 

 

Começar de novo

No entanto, relembram os especialistas, não adianta esperarmos pela “altura ideal” para retomar a intimidade enquanto casal porque, assim como não existe o timing perfeito para ter filhos, não há a a altura certa para reacender a relação.

“A menos que tratemos a nossa relação, o nosso casamento, como uma coisa viva — o que requer cuidar dela numa base regular — não teremos um casamento depois dos filhos saírem de casa.” Segundo Michelle Weiner-Davis, especialista nesta área e que deu esta TED Talk sobre o tema, “o toque é uma forma primordial de conexão e vínculo”.

O sexo depois do parto (especialmente se este tiver sido vaginal) pode ser reiniciado assim que o médico der essa indicação (normalmente, 4 a 6 semanas após o parto). No entanto, é perfeitamente comum que as mulheres ainda não se sintam preparadas nem sintam esse desejo, uma vez que a líbido também pode desaparecer. A privação de sono, entre outros factores, podem levar a uma completa falta de interesse, sobretudo por parte da mulher. No entanto, os especialistas recomendam que se “comece de novo” e devagar. Vale a pena também recordar que intimidade não é apenas sexo, por isso é tão importante o toque e tudo o que envolve o contacto físico gradual até chegar ao contacto pele com pele.

 

Self-care, primeiro é importante cuidar de mim

Outro aspecto a não esquecer quando se trata de nutrir uma relação é que temos primeiro de cuidar de nós próprios, física e emocionalmente. 

Isso pode significar termos tempos para ir ao ginásio ou a uma massagem, ao cabeleireiro ou arranjar as unhas. Falar abertamente sobre a carga mental e emocional que recai normalmente sobre nós, depois de sermos mães. Qualquer coisa que nos ajude a recarregar é uma forma indirecta de trabalhar na intimidade.

Fazer qualquer coisa juntos, como casal, também é uma óptima forma de nos reconectarmos. Podemos fazer uma lista, por exemplo, das coisas que costumávamos fazer juntos e que nos faziam sentir próximos e depois pensar sobre como é que esses rituais mudaram e de que forma é que essas mudanças têm impacto na nossa intimidade.

 

Desejo

Outra forma de alimentar a intimidade é relembrarmo-nos do contexto no qual tínhamos uma boa ligação, juntos. Que características é que o outro tinha? Como era a relação? Qual era o cenário? Pensar qual é o contexto que funciona melhor para ambos pode ser libertador. No entanto, é importante relembrar que nem toda a gente tem um desejo espontâneo (o tipo de desejo sexual que surge do nada). Milhões de pessoas experienciam o que se chama de desejo responsivo, que resulta da estimulação erótica. Ambos os tipos de desejo são normais. 

 

Não nos fiemos na espontaneidade

Lembram-se do início? Os primeiros encontros, o tempo que demoravam a planear um jantar, a arranjarem-se?

Uma relação requer tempo e investimento e, com todo o cansaço e filhos à mistura, não podemos esperar que nos apeteça sexo com tanta frequência como antes. 

Trocar umas mensagens durante o dia, por exemplo, pode ser uma boa ideia, mesmo que depois não dê em nada. Pensar com antecedência nos melhores dias ou momentos para que se possa criar uma situação de intimidade, porque não? Se for preciso colocar na agenda, mesmo que depois não aconteça, é melhor do que nem sequer tentar.

Tal como se desenvolvem bons hábitos de exercício ou alimentação, podemos pensar em desenvolver bons hábitos sexuais. Como? Sexo gera mais sexo (um pouco como quando vamos ao ginásio). Não deixar a preguiça vencer. Pouco a pouco, pode tornar-se mais e mais, em vez do contrário.

 

Criar o ambiente

Depois de criar o momento, é preciso criar o ambiente. Não basta pôr na agenda e esperar que as coisas aconteçam.

Pode ser importante pensar numa coisa especial que ajude a “quebrar o gelo”. Uma música dos dois, umas velas, um banho, uma massagem. O quarto pode ser visto como o “santuário” do casal, mas para casais que fazem co-sleeping isso pode parecer um desafio ainda maior. A Catarina Beato também falou sobre isto aqui e sobre como, mesmo dormindo com os filhos, é possível não perder a intimidade como casal.

 

Se nada resultar, procurar ajuda

Pode não ser o último recurso mas é, sem dúvida, um recurso a considerar quando se trata de salvar uma relação, um casamento. Terapia individual ou de casal pode ajudar em muitas questões, que podem estar directa ou indirectamente ligadas ao desejo sexual. 

Qualquer que seja a estratégia para reconstruir a ligação com o outro, os especialistas dizem que o mais importante é tomar uma acção o mais rápido possível.

“Os filhos não vão ocupar menos espaço com o tempo. A questão é: como é que se consegue conquistar espaço para a relação à volta dos filhos, à medida que eles crescem com necessidades diferentes mas continuamente exigentes?”. 

 

 

Este artigo foi escrito com base no artigo How to Reconnect With Your Partner After Having Kids, do New York Times.

Escrito por: Francisca

Alfacinha e fã assumida da sua cidade. Nasceu e cresceu em Lisboa e embora adore sair e viajar, gosta sempre de voltar. Gosta de dias de sol, flores campestres, coisas imperfeitas e mergulhos no mar. Ler mais.

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