Uma casa cheia de livros e um jardim quase suspenso

Normalmente chegamos às casas pela decoração, pela casa em si. Desta vez, chegámos primeiro à Helena e, mesmo sem saber ao certo o que estaria daquele lado, resolvemos arriscar. 

Diz-se que as casas revelam um pouco da nossa alma, dos nossos gostos – no fundo, da nossa vida. Daí ser uma coisa tão pessoal e, por isso também, nos sentirmos tão privilegiadas por poder conhecer, na primeira pessoa, tantas casas bonitas, por nos confiarem essa missão tão íntima e especial de contar por palavras e imagens estas histórias.

A sensação é sempre a mesma: entramos em casa das pessoas, muitas vezes sem nos conhecermos pessoalmente, e depressa se cria uma empatia. Quem nos abre assim as portas só pode ser especial. E é nestes momentos, em que nos damos mais às pessoas, que a magia acontece. 

A Helena refere precisamente disso. A conversa flui, vamos filmando e fotografando, mas só nos apetece ficar ali sentadas, a falar sobre livros (e sobre a vida em geral). Conversamos sobre os seus (vários!) projectos, sobre a sua mudança de vida, sobre o sucesso do ‘book gang’ que criou. 

Os seus dois gatos vão passeando por ali. A casa tem muita luz natural e um jardim (quase suspenso) na sala. As plantas, às quais nunca ligou quando vivia em casa dos pais, fazem agora parte da sua vida e são um dos elementos que dá mais vida à casa.

A Helena sempre foi uma ávida leitora, mas não acha, de todo, que tenhamos de ler todos o mesmo nem que todos tenhamos de ler “os grandes clássicos”. Pelo contrário, defende que quem “não gosta” ou não se interessa pela leitura, é porque não anda a ler as coisas certas. Acredita que os livros estão a tornar-se cool outra vez e que esta geração digital está a (re)descobrir o gosto pela leitura. 

Tem os seus livros organizados nas estantes e prateleiras da sala. Romances de época, livros históricos, policiais e literatura mais pop estão entre as suas preferências. Como percebeu que este era um tema de grande destaque no seu instagram, decidiu criar uma página mesmo só para o #HMbookgang, onde dá recomendações mensais e onde vai partilhando muitos dos livros que lê.

Prepara-se também para escrever o seu terceiro livro – já tem dois editados, contribuindo para a missão de pôr mais jovens (e não só) a ler.  

O seu mais recente projecto, no qual está actualmente focada, tem a ver com artigos de papelaria – um sonho antigo, o de abrir uma livraria/papelaria. Enquanto isso não acontece, pensou em juntar vários dos seus gostos e criar uma marca com venda online de vários artigos – tshirts com prints, vasos pintados à mão por si e agendas (em breve).

 

Tens ideia de quantos livros já leste?

Eu leio desde que me lembro de mim. E antes de ter a minha casa e as minhas estantes, lia muito da biblioteca e, mais tarde, quando comecei a trabalhar em redação, lia muito porque acabava por ter a oportunidade de ler livros novos acabados de chegar. Contabilizar é praticamente impossível 😛 leio tanto que já me aconteceu várias vezes começar a ler um livro e pensar “já li isto em qualquer lado” e a meio perceber que já tinha lido aquele livro e não me lembrava!

 

Como começou a tua história com os livros e como surgiu o ‘book gang’?

Quando era mais miúda gaguejava muito e isso fazia com que tivesse horror de falar em público e sempre me tivesse sentido meio diferente de toda a gente. Acabava por ler muito porque me permitia refugiar e “viver” outras pessoas, sentir-me outra pessoa e, acima de tudo, a ler em voz alta para controlar a dicção. Acho que isto acabou por me fazer apaixonar pela leitura e pela sua magia. Mesmo na adolescência – com os rapazes e as amigas e as festas e tal – os livros sempre me deram conforto. Era como regressar a casa para um velho amigo. E o bookgang surgiu mesmo nessa premissa. Estava saturada das redes sociais, não me identificava com nada do que via, havia tanta gente a vir ter comigo porque seguia a minha # e no início do ano pensei em criar uma página. A minha ideia era que se 10 ou 20 pessoas se identificassem e sentissem pelos livros o mesmo que eu, já seria óptimo ter mais pessoas com quem falar sobre os livros que andava a ler. E então mais e mais pessoas começaram a aparecer. Pessoas que gostam tanto (ou mais) de livros como eu, pessoas que se começam a entusiasmar para ler mais, pessoas que achavam que não gostavam de ler e agora dão por si a ler um ou dois livros das sugestões mensais… e acho que encontrei a minha motivação para estar nas redes sociais: incentivar as pessoas a ler e a sentir mais a forma como eu me sinto a ler – mágica! 🙂

 

A decoração é uma coisa natural para ti? Onde te inspiras?

Na verdade, sempre fui uma entusiasta da decoração. Só que só tinha o meu quarto. Passava a vida a mudar os móveis de sítio, a trocar tapetes e cortinados e a secretária para um lado e uns meses depois para o outro. É como se, volta e meia, sentisse uma necessidade de reinventar o meu espaço. E quando vim morar sozinha, transformei-me nessa pessoa que sempre soube que ia ser: louca! A minha mãe deu-me a minha primeira planta (o pau de água gigante que está ao lado da janela na sala) e de repente, fiquei obcecada por plantas (que sempre odiei quando ela me obrigava a regá-las quando era mais nova). Ter plantas por todo o lado traz-me paz. E adoro ver aquelas casas minimalistas. Acho que são lindas. Mas que não consigo de todo ser assim. Adoro ter coisas à minha volta. Coisas que me tragam lembranças, dos discos aos livros, quadros, perfumes, plantas…  Não sou muito apegada a nada nem tenho nada de grande valor aqui mas também não me imagino a viver numa casa minimal. Gosto de olhar à minha volta e ler-me nela.

Além de ler, quais são as tuas outras “paixões”?

A minha outra paixão é escrever… que surpresa!!! É aquela paixão mórbida em que algo que nos traz dor e insónias (o processo de escrita pode ser meio doloroso porque, no meu caso, embrenho-me totalmente na forma de pensar da personagem, como vos expliquei aqui, é como se eu fosse outra pessoa) também é aquilo que mais nos entusiasma e apaixona e nos dá prazer! Estou sempre a dizer que todos temos que ter uma paixão que nos mova sem ser uma paixão romântica (marido/namorado), algo que nos dê “tesão” e vontade de sair da cama todos os dias, algo que seja só nosso e não dependa de mais ninguém. Para alguns pode ser jogar à bola ou ir ao ginásio ou nadar ou viajar ou colecionar moedas, sei lá. Para mim é escrever. Não me imagino a fazer outra coisa.

 

Se houvesse uma crise e só pudesses levar uma coisa contigo desta casa, qual seria?

Os meus gatos! Uma vez em conversa, perguntei se eu era a única pessoa que todas as noites deixa as caixas deles “preparadas” para o caso de acontecer alguma coisa (do género… um terramoto) poder agarrar neles rapidamente e fugir. Fiquei altamente satisfeita por saber que não. Senti-me menos louca! Mas neste cenário em que só posso levar uma coisa, levava os meus dois livros (e o Harry Potter). Porque não quero viver num mundo pós-apocalíptico em que o meu maior orgulho não existe. E nesse cenário iria, sem dúvida, precisar de magia para fugir dele!

 

Que livros nos recomendarias? E em geral, quais são os 5 livros que achas que toda a gente devia ler uma vez na vida?

Muito difícil! Acho que vos recomendava As Raparigas de Emma Cline para se apaixonarem pelo registo Young Adult tanto quanto eu me apaixonei (e que depois tenham vontade de ler o meu eheh)!

Eu aconselho toda a gente a ler A Grande Solidão de Kristin Hannah, o Quarto de Jack de Emma Donogue, O Grupo de Mary McCarthy, Vox de Christina Dalcher e As Raparigas de Riade de Rajaa Al-Sanea. Tudo livros com mensagens poderosas!

 

 

 

 

Obrigada, Helena, por nos deixares entrar na tua ‘selva’ de livros!

Escrito por: Francisca e Joana

Somos a Joana e a Francisca, alinhamo-nos na simplicidade das coisas e complementamo-nos nas diferenças do dia-a-dia. Queremos partilhar o que nos inspira e o que nos leva a ser mais felizes. Acreditamos que esta partilha tem também o poder de inspirar o mundo a fazer o mesmo. Ler mais.

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