Terrible two? A abordagem Montessori para compreender as crianças

Há em mim (e provavelmente em quase todas as mães/pais) uma parte que estava adormecida, antes de ter filhos. Quando me tornei mãe, fiquei também muito mais atenta e interessada no desenvolvimento infantil. É um tema que me interessa genuinamente, com uma grande vantagem: tenho dois “objectos de estudo” em casa.

Já tinha escrito um artigo sobre a pedagogia Montessori (os princípio básicos, o ambiente e os brinquedos) mas, mais recentemente, cruzei-me com este livro, cheio de ideias e muito rico na abordagem a todas as fases de desenvolvimento até aos 3 anos – The Montessori Toddler – e pensei que seria interessante dar continuidade ao tema e abordar mais alguns aspectos.

Considero útil ler sobre estas temáticas, sobretudo para reflectir sobre o que queremos para a educação dos nossos filhos, pensar em estratégias, antecipar necessidades e situações e integrar o que nos faz sentido. E, convenhamos, se conseguirmos aquilo que é proposto no livro – tornarmo-nos pais mais mindful, atentos e relaxados -, bingo!

Apesar de, como também referi no outro artigo, não “seguirmos” à letra nenhuma pedagogia, sou adepta da maior parte dos princípios defendidos por Montessori e este livro está cheio de insights poderosos e dicas práticas.

Planeio fazer uma série de alguns artigos sobre os temas que considero mais relevantes, para não ficarem demasiado extensos. O primeiro é sobre o maravilhoso mundo dos toddlers.

Compreender as crianças e lidar com a “idade das birras” à luz das ideias Montessori

Apesar de não termos uma tradução à letra para toddler, sabemos que podem ser descritos como crianças entre 1 e 3 anos, em plena fase de descoberta do mundo, passando pelos terrible two, em que normalmente nos levam do riso às lágrimas num instante. A perspectiva da autora, Simone Davis, é que os toddlers são, no fundo, incompreendidos – estão a aprender a andar, a comunicar, a explorar e não têm grande controlo sobre os impulsos.

O objectivo deste livro, que adapta a pedagogia Montessori à parentalidade, é dar-nos algumas ferramentas para trabalharmos com os nossos filhos, para que se sintam apoiados e compreendidos, sobretudo nos momentos mais difíceis. No fundo, aprendermos a ver mais através dos olhos dos nossos filhos e plantar a semente para educar pessoas responsáveis e curiosas.

As crianças destas idades são o exemplo mais genuíno do slow living e sabem aproveitar bem o momento presente, estão sempre focados no aqui e agora. Este pode ser um óptimo reminder para nós e para seguirmos mais o seu ritmo mais vezes (embora nem sempre pareça possível quando, por exemplo, queremos sair de casa de manhã a horas!).

São autênticos (ao ponto de nos ‘envergonharem’ em público com as coisas que dizem alto!), são inocentes e têm uma enorme capacidade para ser autónomos. Precisam de dizer não (a palavra preferida durante a crise de afirmação que pode durar dos 18 meses aos 3 anos), precisam de se mexer, de explorar e descobrir o mundo à sua volta (coisa que não dá jeito nenhum quando vamos, por exemplo, almoçar fora!). Daí também a importância que Montessori reforça de que os ambientes possam ser explorados livremente pelas crianças de forma independente e segura.

Deixá-los envolverem-se nas tarefas diárias, estimulá-los a explorarem o ar livre e a natureza, sentir a terra com as mãos, a relva com os pés e a chuva na pele. Esta liberdade vai ajudá-los a crescer curiosos.

Confesso que me “obrigo” a, por vezes, dar um passo atrás. Esperar que caiam e se levantem sozinhos, que entornem o copo com água para perceberem o efeito, que carreguem sozinhos o prato de loiça para perceberem que se parte. Tudo isto faz parte da aprendizagem e eles são capazes de nos surpreender e são tão mais autónomos quanta mais liberdade tiverem para experimentar o mundo à sua volta (obviamente sempre com segurança e supervisão).

No entanto, também precisam de limites. São os limites que os mantêm seguros, que lhes ensinam a respeitar os outros e o ambiente e que os ajudam a tornarem-se seres humanos responsáveis.

A rotina, a ordem e a consistência também lhes dão segurança, porque os ajudam a perceber o mundo e a saber o que esperar.

Quando os limites não são consistentes, as crianças vão testá-los para ver se a nossa decisão muda. Se perceberem que cedemos ou que com uma birra mudamos a nossa posição, irão voltar a tentar. Quando pensamos que eles estão a testar-nos, a levar-nos ao limite, ajuda pensar nisto. Podemos tentar ter mais paciência, mais compreensão e oferecer ajuda para que se acalmem e, depois, ajudá-los a arranjarem uma solução.

Aquilo que, por vezes, aquilo que podemos considerar teimosia é, na verdade, a sua impulsividade característica. O cortex pré-frontal ainda está em desenvolvimento e é a parte do cérebro responsável pelo auto-controlo e pelas tomadas de decisão. Por isso, cabe-nos a nós, adultos, sermos o cortex pré-frontal deles.

Muitas vezes não é fácil manter a calma e o foco, sobretudo em situações de stress como, por exemplo, uma birra no meio do supermercado. Imaginem o cenário: estamos carregados, com pressa, toda a gente está a olhar e o nosso filho resolve começar num pranto porque quer levar uma coisa e nós dizemos que não, por exemplo. Só nos apetece enfiar num buraco e desaparecer. Quem nunca?

Nem sempre corre bem, e tenho perfeita consciência que as birras “descambam” tanto mais quanto os nossos níveis da nossa paciência estiverem em baixo. Mas o ideal é conseguirmos colocar-nos ao nível deles, mostrar alguma empatia pelo que estão a sentir e tirá-los da situação, assim que possível, tentando desviar o foco para outra coisa ou então conversando sobre o que se passou, ajudando a que encontrem soluções para que não se volte a repetir. Tudo depende das idades e das estratégias que acharmos mais adequadas para os nossos filhos.

Muitas vezes as birras resultam de frustração, de não saber como lidar com certas emoções ou da comunicação de alguma necessidade que ainda não consigam expressar de outra forma. Algumas vezes, o cansaço, a falta de ordem, rotina ou segurança também desencadeiam uma birra, que até pode não ter uma causa específica.

Gosto da ideia da autora do livro, que tenta “desmistificar” e visão que temos sobre os “terrible two” e a verdade é que é tudo uma questão de perspectiva (e, por vezes, também de expectativas nossas).

Eles são pequenas esponjas e absorvem muito mais do que pensamos. Até aos 3 anos, todo este processo é insconsciente. A aprendizagem da linguagem, a forma como lidamos com os objectos, como tratamos os outros (idealmente com respeito), como organizamos as coisas e todo o ambiente à sua volta. Por um lado, isto representa também uma grande responsabilidade, porque eles absorvem tanto o positivo como o negativo. Não quer dizer, contudo, que vivam numa “redoma” alheados das coisas más, que sejamos sempre “perfeitos” ou que os protejamos a todo o custo do mundo real. Mas, no que toca à nossa responsabilidade como pais e educadores, podemos tentar ser o mais mindful possível, para sermos role models positivos e lhes darmos exemplos bons para absorverem.

Isto remete, para concluir, para a observação, que é também um dos aspectos base da abordagem Montessori. Observar significa ficar apenas a ver, sem analisar ou tirar conclusões. Observar, factualmente apenas, o que vemos (movimentos, linguagem, postura e acções) ajuda-nos a perceber quais são os interesses da criança, qual a fase de desenvolvimento em que estão e, quando necessário, quando é que é preciso intervir e estabelecer limites ou oferecer alguma ajuda.

 

Nos próximos artigos sobre o tema, vamos abordar aspectos mais práticos destes princípios. Espero que seja útil e que tenham gostado!

Escrito por: Francisca

Alfacinha e fã assumida da sua cidade. Nasceu e cresceu em Lisboa e embora adore sair e viajar, gosta sempre de voltar. Gosta de dias de sol, flores campestres, coisas imperfeitas e mergulhos no mar. Ler mais.

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  • Adorei. Adoramos a teoria também é cá em casa tentamos reger-nos pelos princípios Montessori desde cedo (também sem fundamentalismos). Mas temos resultados notórios neste balanço de disponibilidade e paciência. É exaustivo mas muito gratificante. Um beijinho e aguardo novos artigos