Uma casa aberta para o jardim e espaço para sonhar

A Ana já nos tinha desafiado para ir até Braga e nós, que somos peritas em conjugar o verbo ir, aproveitámos a primeira oportunidade para nos fazermos à estrada. 

Fomos recebidas, numa tarde de Primavera, pela Ana e pela pequena Catarina, que dormia tranquilamente. 

 

A casa, envolvida por um pequeno jardim, respira paz, emana tranquilidade. A cozinha é muito luminosa, pois tem umas grandes portas envidraçadas que abrem para o jardim, um dos recantos mais especiais da casa. É aqui que a Ana nos começa a contar a história deste espaço que, apesar de ser arrendado, já é muito seu.

 

A mesa lá fora deixa adivinhar os almoços de família mais demorados ou as jantaradas de amigos que se estendem pelas noites de Verão. Esquecemos que estamos na cidade, quase parece que estamos no campo. 

No piso de baixo está ainda a sala, com janelas também para o jardim e muitos objectos especiais. Os móveis têm quase todos uma história, desde a secretária que recuperou na rua aos que vieram de casa da avó.

Existe também um canto destinado às crianças da casa – para já, as duas filhas mais velhas – a Constança e a Camila. Tal como a Ana nos conta, os brinquedos das filhas têm de caber todos neste espaço e os que não couberem, é sinal que estão a mais.

Pelo resto da casa, a regra é a mesma: a Ana está numa fase de ‘destralhar’ e tentar simplificar. 

 

Subimos as escadas e encontramos dois quartos: o das miúdas e o dos Pais (que ainda é partilhado também pela bebé Catarina, que tem apenas 3 meses). Tudo simples, luminoso, com pequenos pormenores que não são deixados ao acaso.

 

Para muitos, a Ana já não é desconhecida ou, pelo menos, a sua marca não o é, de certeza. Criou a Grace baby and child há já alguns anos, quando nasceu a primeira filha. Entre mudanças para a Suíça e de volta para cá, a marca foi crescendo e neste momento tem o sua loja/atelier no final da rua onde vive.

Gere os seus dias entre a sua marca, a casa e a família, actualmente com a pequena Catarina sempre a fazer-lhe companhia. 

 

Quais são, para ti, os objectos mais especiais na vossa casa?

Diz a minha irmã que eu nunca hei-de ter uma casa minimalista. E por mais que comece no branco e me esforce por manter o branco [porque gosto, porque nunca cansa e porque é uma cor que me faz sentido como base para todas as outras cores], a verdade é que aos poucos vou acrescentando cor e mais cor, com uma clara queda para os tons quentes e avermelhados eu, que até nem gosto por aí além de vermelho.

Assim é a minha sala, cheia de objetos de família, comprados em feiras vadias, trazidos de viagens ou até recolhidos da rua, como é o caso do armário de persiana que encontrei na Guerra Junqueiro quando ia a caminho de casa, ainda vivia em Lisboa. Tenho outro na loja, não cabia cá em casa.

Na minha sala, quase tudo tem uma história. A minha peça preferida é capaz de ser a cómoda estilo art deco que a minha avó me deu há muitos anos e que tem andado de casa em casa. Depois, a coleção de ilustrações que está na parede é de 1938 e retrata os trajes típicos das províncias portuguesas naquela. São cópias, as originais estão na casa do meu tio J., que teve a iniciativa de mandar fazer réplicas e o cuidado que estas fossem emolduradas de forma fiel às originais. Gosto muito desta coleção e quase todos na família temos uma igual.

Em destaque, uma escultura do tio do Bernardo, que veio cá para casa ainda o Bernardo não tinha reaparecido na minha vida. A cadeira de braços de madeira veio do escritório do bisavô do Bernardo, bem como a máquina fotográfica que agora repousa na secretária. Depois os copos e as chávenas antigas, peças que a minha mãe volta e meia me vai trazendo lá de casa. São, na sua maioria peças da família do meu lado paterno, às quais se juntam agora outras peças da família do pai do Bernardo e eu adoro essa fusão material e simbólica das duas famílias, enormes e amigas, que se cruzam desde há muito tempo e de variadas formas.

 

 

Como vês a decoração? Uma expressão daquilo que queres transmitir ou antes um reflexo da vossa vida em família?

Se me perguntam qual o meu lugar preferido no mundo, eu digo: a minha casa. Eu adoro a minha casa [e olhem que é raro eu pronunciar a palavra “adoro”]. Dá-me muito prazer vivê-la e gosto de estar em casa. Não sou pessoa de passar um dia no sofá, de manta e pijama, não sou de todo; chega o fim-de-semana e só quero sair por aí. Mas depois gosto do regressar. Do estar. E ainda mais do que a viver, gosto de a decorar.

Decoro sozinha e constantemente, nunca encaro uma casa como um projeto acabado, muito menos a última. Coleciono revistas. Misturo coisas do Ikea com peças de família, umas com bastante valor até, outras que nada valem mas que eu quero precisamente por serem toscas ou por terem vindo de uma cozinha ou de uma casa de alguém que me é próximo. E vou mudando as coisas de lugar até lhes encontrar o sítio perfeito.

Costumo dizer que entrar na casa de uma pessoa é como entrar na sua alma. Para mim, é uma das melhores formas de conhecer alguém: mais do que para ver o que tem ou o que deixa de ter, entrar na casa de uma pessoa é ter o privilégio de observar como vive. Como está. Como dispõe os móveis, como procura a luz, que cores privilegia, que objetos gosta de colecionar, o que exibe e o que esconde. Uma casa tem muito que se lhe diga. Digo eu.

A partir do momento em que temos crianças, neste caso três!, uma casa torna-se não só uma expressão da nossa forma de estar como também, porque faz parte, da nossa vida em família: encontrar um espaço para os brinquedos das crianças é o maior desafio. Como não há quarto dos brinquedos – e mesmo que houvesse duvido que o usassem, elas gostar de estar onde nós estamos – para mim o mais difícil é conciliar uma sala bonita e arrumada com as coisas delas em permanente rebuliço.

 

Como vivem a vossa casa no Verão? Mudam alguma coisa ou têm hábitos diferentes?

Passamos mais tempo no exterior, sem dúvida. Fazemos todas as refeições fora e quando não está muito bom tempo na praia apanhamos sol na relva. Este ano coloquei os candeeiros e imediatamente passámos a receber mais amigos para jantar. O próximo passo é instalar um chuveiro, até lá temos a mangueira para uns banhos ao final da tarde!

 

Já mudaram várias vezes de casa (e de país!). Como encaras a mudança?

Com muita naturalidade. Como eu disse em cima, nunca encaro uma casa como um projeto acabado nem como sendo a última. Por exemplo, eu adoro esta casa e estamos super felizes aqui, tanto que até já tentei várias vezes convencer a minha senhoria a vender, mas na minha cabeça já estou a pensar na próxima, neste caso uma casa de praia, que é o nosso maior sonho.

 

O que mudaria na vossa casa, se não houvesse limites nem impossíveis?

Se eu pudesse, eu levaria esta casa comigo se (e quando) formos viver para outro lugar. Imagino-me a voltar a viver fora do país e sei que, mais tarde ou mais cedo, iremos sair de Braga. E quando (ou se) isso acontecesse, teria imensa pena de deixar esta casa. Portanto se eu pudesse, fazia como nos USA: metia-a num atrelado e leva-a comigo. A casa e o jardim! 

Agora mais a sério: se esta casa fosse minha, faria um terceiro quarto em cima da cozinha e mais uma casa de banho. Assim já seria possível vivermos aqui por muitos e mais anos. Também a pintava toda de novo, que já está a precisar 🙂

 

É sempre uma inspiração conhecer mulheres assim, com garra e muitos sonhos. A Ana se calhar não sabe, mas já éramos suas admiradoras há muito tempo, não só pelo seu projecto, mas também pelo dom que tem para a escrita e pelo poder que tem de nos fazer viajar sem sair do lugar.

 

Obrigada, Ana, por nos teres desafiado a ir a Braga e por nos teres recebido tão bem.

Vemo-nos em Lisboa, ou por aí!

 

Escrito por: Francisca e Joana

Somos a Joana e a Francisca, alinhamo-nos na simplicidade das coisas e complementamo-nos nas diferenças do dia-a-dia. Queremos partilhar o que nos inspira e o que nos leva a ser mais felizes. Acreditamos que esta partilha tem também o poder de inspirar o mundo a fazer o mesmo. Ler mais.

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