Tempo de abrandar

É urgente abrandar o ritmo.

Quanto de nós precisam deste reminder?

Obrigarmo-nos a parar mais vezes, a fazer menos coisas, a pensar com mais calma. Tudo isto, em prol de uma vida mais saudável e mais feliz. Ser lento, fazer menos, ter mais calma é, muitas vezes, entendido como sinónimo de preguiça ou pouca produtividade. Mas não é, de todo, o mesmo.

Foram estas as grandes premissas da conversa a que fomos convidadas a assistir há umas semanas, numa manhã em que o tema era, precisamente, o slow livingCarl Honoré, guru internacional do slow movement, veio falar, a convite do Esporão, que está agora também a lançar uma campanha cujo principal mote é abrandar (podem ver aqui o vídeo da campanha, vale a pena!).

O tempo é uma dimensão cultural e a gestão do mesmo varia muito de país para país, às vezes até de pessoa para pessoa. Não podemos, no entanto, confundir o movimento slow com procrastinação.

Slow living não é adiar, não é deixar as coisas por fazer. É, antes, gerir as nossas rotinas e prioridades, e focarmo-nos no que realmente é mais importante para nós. E isto exige, antes de mais, uma grande reflexão sobre estes pontos.

Vivemos cada vez mais num ritmo frenético, alimentado pelas tecnologias, sempre ligados, sempre em piloto automático. Ter a força para parar é um exercício de auto-controlo e coragem enorme. Exige quase uma força física para ‘remar contra a maré’ e saber dizer “esperem aí, que isto é mais importante”.

Carl Honoré fala sobre o movimento slow em quase todas as dimensões e actividades quotidianas. Na alimentação, na agricultura, no exercício físico, na educação. Há momentos para ser mais rápido e outros em que é preciso ser mais lento, o segredo é encontrar a velocidade certa. Uma ideia simples, mas poderosa.

Se observarmos, por exemplo, a agricultura, percebemos que, quem tenta contrariar a natureza, imediatamente perde a sustentabilidade. Há que respeitar os ciclos e o tempo de cada cultura.

 

A nossa experiência e o Fox&June

Há muito que temos consciência de tudo isto. A nossa mudança de vida foi também uma grande realização desta convicção: gerir o nosso tempo de acordo com as nossas prioridades e ter mais tempo para fazer tudo o que gostamos.

No entanto, neste primeiro ano de Fox&June, entre outros acontecimentos muito importantes na nossa vida (como o nascimento de mais um filho), o ritmo não se revelou assim tão calmo.

A vontade de fazer bem, de chegar a tudo, de nos desafiarmos e superarmos, fez com que o trabalho, muitas vezes, não tivesse hora para acabar. Fins-de-semana incluídos. Quem corre por gosto não cansa, mas é preciso ter consciência de que há sempre um preço a pagar. Por muito que estejamos num estado de flow, em que tudo flui e nem damos pelo tempo a passar, as pessoas à nossa volta notam e o corpo ou a cabeça, mais cedo ou mais tarde, também dão os seus sinais de que é tempo de abrandar.

Com o Fox&June começaram a surgir cada vez mais propostas e desafios e aliar isso a uma gestão familiar (no meu caso, com um bebé ainda em casa), ou a mais desafios profissionais e vontade de explorar outras vertentes, começou a tornar-se demasiado. Demasiado exigente para o ritmo que, supostamente, tínhamos escolhido e para o slow living, que apregoávamos e almejávamos com este projecto.

Foi então que surgiu a decisão, nem sempre fácil, mas lógica e inteligente, de redefinir algumas coisas. Redefinir objectivos, metas, procedimentos. Redefinir estratégia e ajustar o que estamos a fazer à vida que queremos viver, ao ritmo que queremos ter.

É um passo difícil, porque muitas vezes pode ser interpretado como falhar, desistir. Mas não é nada disso. É, simplesmente, sabermos ouvir-nos, ouvir o nosso corpo, ouvir quem está por perto e também nos vai orientando.

Como viver mais devagar

Algumas dicas e ideias para adoptar um estilo de vida mais slow. São quase todas muito simples e só dependem de nós e da nossa vontade de as pôr em prática e de mudar. Tudo com o objectivo de vivermos menos acelerados e sermos mais felizes.

  • Desligar o telemóvel mais vezes, deixá-lo em casa quando saímos para um passeio ou deixá-lo à porta assim que entramos em casa
  • Definir bem o que é mais importante para nós (prioridades)
  • Saber dizer não a tudo o que não é prioritário
  • Praticar mindfulness, estar presente nas pequenas coisas do dia-a-dia (tomar um duche, tomar o pequeno-almoço com calma e saborear, um café e uma conversa com um amigo ou mesmo um colega de trabalho, uns minutos de brincadeira com os filhos, …)
  • Criar espaço e tempo no nosso dia (para o inesperado, para uma coisa que gostemos de fazer ou simplesmente para não fazer nada)

 

Há muitas maneiras de começar a viver uma vida mais devagar. O importante é reflectir sobre isto e começar.

 

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Escrito por: Francisca

Alfacinha e fã assumida da sua cidade. Nasceu e cresceu em Lisboa e embora adore sair e viajar, gosta sempre de voltar. Gosta de dias de sol, flores campestres, coisas imperfeitas e mergulhos no mar. Ler mais.

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  • Bom. Não, excelente tema.
    Acontece que a génese de tudo está no segredo e na arte de saber identificar e definir as tão faladas prioridades….tudo começa aí, principalmente o insucesso destas decisões.
    Queremos ser e fazer tudo e tudo é importante e com tantas coisas a acontecerem queremos chegar a todas. Quero fazer lanches saudáveis para a família. Quero cozinhar jantares diversificados.
    Tenho de ir às compras, preciso lavar roupa, arrumar a casa, trabalhar e ir ao ginásio.
    Adorava ver pelo menos uma série por semana, mas quem prepara as lancheiras e os pequenos almoços para o dia seguinte?
    Decisões difíceis. E é para estas decisões que deve existir ajuda.

    • Sim, pedir ajuda sempre que precisarmos. Seja à família ou amigos. Para encontrarmos tempo para nós. Só quando estamos bem, conseguimos estar bem para os outros 🙂