Desreguladores endócrinos

Estes produtos têm BPA?

Quantas vezes já se ouviram fazer esta pergunta? Mas sabem ao certo o que ela significa? Afinal qual é o problema de uma garrafa, biberão, chupeta, prato, caixa, ter BPA? 

É a isso que respondo hoje. O BPA faz parte de um grupo chamado Desreguladores Endócrinos (DEs). O nome mete medo não é? É porque ainda não sabem o que provocam.

Em 2012 a Organização Mundial de Saúde (OMS) concluiu um relatório no qual alertava para os potenciais perigos dos efeitos de substâncias encontradas em produtos como: pesticidas, produtos electrónicos, produtos de higiene pessoal, cosméticos, aditivos alimentares e contaminantes. O estudo realça algumas “associações entre a exposição aos DEs e problemas de saúde, incluindo o potencial de tais químicos poderem contribuir para o cancro da mama em mulheres, cancro da próstata em homens, alterações do sistema nervoso em crianças, hiperactividade e défice de atenção em crianças.”

Mas afinal o que são DEs?

De acordo com a OMS um desregulador endócrino é uma substância ou mistura exógena que altera funções do sistema endócrino e consequentemente causa efeitos de saúde adversos num organismo intacto, nos seus descendentes ou sub-populações. Ou seja, estas substâncias interferem com a acção normal das hormonas. Os sistemas afectados pelos DEs incluem todos os sistemas hormonais desde aqueles que controlam o desenvolvimento e funcionamento dos orgãos reprodutores, até aos tecidos e orgãos que regulam o metabolismo e saciedade.

O que fazem os DEs?

Imitam a actividade biológica de uma hormona, ligando-se a um receptor, o que leva a uma resposta indesejada dando início ao que seria uma resposta natural da célula à presença de uma hormona, mas na altura indevida ou de forma excessiva. 

  • Ligam-se ao receptor, mas não o activam – a presença do químico no receptor evita a ligação da hormona natural
  • Ligam-se a proteínas transportadoras no sangue, alterando a quantidade de hormonas naturais presentes na circulação 
  • Interferem com processos metabólicos do organismo afectando a síntese das hormonas naturais

Consequências para a saúde dos efeitos dos Des

  • Reprodução feminina
  • Reprodução masculina
  • Fertilidade
  • Tiróide
  • Desenvolvimento neurológico
  • Cancros hormono-dependentes
  • Desordens metabólicas
  • Desordens imunológicas 

Diferentes fases da vida levam a maior risco 

Nos adultos, as hormonas ou os DEs têm um efeito enquanto estão presentes, o qual desaparece quando as mesmas desaparecem. Por outro lado, a exposição a hormonas ou DEs durante o desenvolvimento (gestação e infância) pode ter efeitos permanentes se a exposição ocorre durante o período no qual um tecido específico se está a desenvolver. Os efeitos podem tornar-se visíveis apenas décadas mais tarde. Isto porque quando um tecido se está a desenvolver é mais vulnerável à acção das hormonas.

Quais são os Des de que falo e o que provocam 

Ftalatos

Químicos industriais usados em cosméticos, embalagens de comida, brinquedos e materiais de construção. A sua utilização serve para suavizar o plástico e fazer os vernizes das unhas flexíveis e resistentes, além de melhorarem a penetração de certos produtos de beleza na pele. Também descobriram a sua presença na urina de pessoas que comiam fast food. Estão muitas vezes presentes nas embalagens de carne e cereais.

Podem ser uma das causas de puberdade precoce em meninas.

BPA/BPS

Usado em garrafas de plástico, recipientes de plástico para comida, material dentário, latas e recibos impressos no local de venda.

Elevam a taxa de diabetes, cancro da mama e da próstata, diminuição de espermatozóides, adolescência precoce, obesidade e problemas neurológicos. Desregulam o sistema reprodutor e afectam a tiróide.

Triclosan

É um dos antimicrobianos utilizados em produtos como sabonete líquido, detergentes, pasta de dentes, produtos de cabelo e pesticidas.

Mostrou efeitos na tiróide.

Dioxinas

As dioxinas formam-se durante vários processos industriais quando a clorina ou a bromina são queimados na presença de carbono ou oxigénio.

Causam desregularização nas hormonas sexuais masculinas e femininas. Podem afectar permanentemente a qualidade dos espermatozóides nos homens. São poderosos carcinogéneos e também afectam o sistema imunológico.

Atrazina

Utilizada na  maioria dos campos de milho nos EUA contaminando as águas potáveis.

Está relacionada com o cancro da mama, puberdade atrasada e inflamação da próstata.

Chumbo

Presente em muitas pinturas antigas.

Altamente tóxico, em especial para as crianças. Pode causar danos permanentes cerebrais, diminuição de QI, perda de audição, aborto, nascimento prematuro, pressão arterial alta, danos nos rins e problemas no sistema nervoso.

Arsénico

Muitas vezes encontrado no arroz, devido à contaminação da água.

Pode causar cancro da pele, bexiga e pulmão. Leva à imunossupressão, resistência à insulina, osteoporose e pressão alta.

Mercúrio

Metal naturalmente presente na natureza, mas que é tóxico. Chega à nossa alimentação através dos produtos do mar contaminados.

As mulheres grávidas são as mais vulneráveis uma vez que este metal se concentra no cérebro do feto, podendo interferir com o seu normal desenvolvimento.

Glifosato

Herbicida de espectro alargado, criado nos anos 70. É actualmente o herbicida mais utilizado em todo o mundo. Em Portugal, na última década, a sua utilização aumentou 50%.

Foi classificado em 2015 pela IARC como “provavelmente cancerígeno para humanos”, estando relacionado com o aumento da incidência de cancro, doença celíaca, infertilidade, malformações congénitas, doença renal e autismo.

Como evitar os DEs

Evitar usar produtos de cuidados pessoais, detergentes e produtos de limpeza que contenham “frangrância” na lista de ingredientes. Evitar cozinhar ou preparar alimentos em recipientes de plástico no microondas. Não usar cortinas de banho à base de vinil. Pintar em áreas bem arejadas. Dar às crianças brinquedos de madeira e não permitir que mordam brinquedos de plástico. Evitar embalagens de plástico com o número 3 junto ao símbolo de reciclagem. Reduzir os enlatados. Evitar comer ou beber de plásticos com o número 7 junto ao símbolo de reciclagem. Evitar pegar nos recibos das registadoras. Evitar o uso de produtos “antibacterianos”. Reduzir o consumo de produtos animais. Comprar produtos biológicos. Remover pinturas antigas e aplicar um bom filtro de água. Lavar o arroz e cozê-lo com muita água, passar a consumir mais arroz da região dos Himalaias (basmati e thai) que contêm menor concentração de arsénico. Evitar peixes de maior porte, como o atum.

Artigo baseado no curso “Fazer da cozinha uma farmácia”
foto 1 by Karina Tess on Unsplash
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Escrito por: Joana

Joana. Casada com o João. Mãe do Sebastião. Mãe emprestada de uma Teckel, a Sushi, e de um gato rafeirão, o Tozé. Vive em frente ao mar e adora o campo. Quer alcançar o significado da palavra devagar. Viver devagar, saborear cada segundo e cada detalhe. Ler mais.

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