Amamentação: uma história, duas jornadas

Quando partilhamos artigos que têm necessariamente um cunho mais pessoal, porque contam com partilhas mais íntimas, temos sempre o objectivo de inspirar ou, no caso, de ajudar alguém que passe por situações semelhantes, que possa de alguma forma achar útil ou reconfortante este tipo de informação.

Quis esperar alguns meses para ter o distanciamento suficiente e conseguir perceber, de facto, como foram distintas as minhas jornadas na amamentação com os meus dois filhos e o que posso retirar de ambas.

Neste artigo partilho as duas experiências diferentes que tive a amamentar os meus dois filhos, com todas as particularidades que cada uma teve. É um tema que podia ser mais simples, mas não é (não foi, no meu caso) simples nem linear.

Se não tiverem interesse na história, podem saltar já para o final do artigo para um resumo com as dicas que acho mais úteis a retirar da minha experiência.

Primeira parte (Lourenço)

Devo começar por dizer que, antes de ter filhos, nunca tinha pensado muito no assunto, não tinha sequer grandes referências à minha volta no que toca a este tema (na verdade, as poucas amigas próximas que já tinham filhos tinham dado muito pouco ou optado por não dar). Mas, quando engravidei pela primeira vez, foi algo que surgiu naturalmente: sabia que queria amamentar.

Na minha cabeça, tudo seria natural e tranquilo. Nunca sequer pensei que podia ser um “problema”. Ingenuidade minha (?!).

Fizemos um curso de preparação para o parto onde, naturalmente, se falou sobre o tema. Mas nunca foi algo que me gerasse grandes ansiedades ou dúvidas, logo se veria, mas não me ocorria por onde podia correr mal.

O Lourenço nasceu, de parto normal, tudo relativamente tranquilo e linear. Sabia da importância de o tentar pôr a mamar durante a primeira hora de vida, mas claramente parecia a única importada com isso. Veio para a mama já depois desse tempo e assim começava a nossa jornada. 

Muitas dores, mas nada que não se fizesse. Comecei logo a pôr os cremes que me tinham recomendado, mas não me lembro de alguém ter perdido tempo ali comigo, connosco, a ver se a pega estava bem ou a tentar que mamasse melhor. 

Na segunda noite, quando ele não parecia ficar tranquilo depois de mamar supostamente bem, começou o desatino. Ele só chorava e nós, pais inexperientes de primeira viagem, tocávamos na campainha na esperança que alguém nos viesse acudir. Eu já tinha começava a ficar com ferida, dores lacinantes e sangue. 

A enfermeira que nos calhou nessa noite, simpática e toda despachada, depressa sugeriu que tentássemos dar-lhe chupeta. Eu nem tinha levado, porque vinha com a ‘lição’ bem estudada e já que queria dar de mamar, não queria introduzir precocemente chuchas nem outras tetinas, para não interferir com uma pega correcta e a amamentação.

À terceira ou quarta vez, apresentou-nos o aero-om e deu-lhe umas gotinhas. Nem assim ele acalmou, até que ela se sentou na minha cama, a perceber que eu estava resistente à ideia, mas com uma conversa supostamente toda moralista. O mal dele devia ser fome e aquilo não era o fim do mundo, quis ela dizer-me. Então trouxe os biberons de suplemento. Já não me lembro se ele acalmou ou não depois disso. Claramente, isso não foi o mais importante a reter.

No dia seguinte, lembro-me que mandei alguém à farmácia comprar mamilos de silicone, discos de gel, mais cremes e pomadas – qualquer coisa que me ajudasse com aquilo. Fui para casa a dar suplemento e com os mamilos em ferida.

 

Antes de continuar – percebo quem, neste momento, pergunte “para quê?” ou se vale assim tanto o sacrifício.

Gostava de fazer um parentesis para dizer que não sou, de todo, fundamentalista.

Acho que já todos sabemos da importância e dos benefícios do leite materno para o bebé. São mesmo muitos e a OMS recomenda aleitamento materno exclusivo até aos 6 meses. Mas acho mesmo que cada pessoa, cada mulher neste caso, deve fazer o que bem entender e o que achar que vai ser melhor para si e para o seu bebé. Seja isso secar o leite antes de sair do hospital e dar biberons sem culpa, seja amamentar por opção, seja tentar e não querer mais, seja tentar e persistir.

Ainda hoje não sei bem se de facto compensa aquilo por que passei no início de cada jornada, em cima de um corpo em recuperação de um parto, que já tem as suas dores e desconfortos. Mas algo, um instinto quase animal, me fez continuar, não desistir. Talvez uma das situações que me fez testar mais a minha perseverança. Mas nunca senti que fosse mais ou menos por continuar ou por simplesmente dar biberon.

 

 

Como me custava horrores de cada vez que ele tinha de mamar – e, num recém-nascido, estamos a falar num mínimo de 8 vezes por dia, decidi começar logo a tirar com a bomba, porque não me doía tanto. ERRO. CRASSO. em plena “subida do leite”, o meu corpo estava a receber uma mensagem errada e começou a produzir ainda mais, como se eu estivesse a amamentar dois bebés. Isso foi a cereja no topo do bolo: uma subida descontrolada, dores horríveis e pormenores que são desnecessários aqui.

Resumindo, uma ida às urgências, a um fio (literalmente, lembro-me tão bem!) de sair de lá com comprimidos para secar o leite (tomei apenas uma dose pequena para reduzir um pouco a produção) e mandar a amamentação para o espaço.

Durante duas semanas, as lágrimas escorriam-me pela cara cada vez que ele mamava. São umas dores que já nem consigo descrever. Nos intervalos, fazia massagens para tirar o excesso e evitar que se criasse outro problema – uma mastite.

Recorri a várias ajudas de enfermeiras e especialistas de amamentação, que me ajudaram imenso com a pega, a retirar os mamilos de silicone, e a conseguir retirar também o suplemento. Também fizeram uma pequena intervenção para cortar o freio da língua, que era muito curto e nestes casos pode influenciar bastante a pega.

Ao fim de três semanas, tudo se começou a encaminhar, a produção estava mais estabilizada, as feridas começaram a sarar, o corpo também estava mais recuperado. Ele estava a aumentar bem de peso e aos poucos tudo começou a ser mais natural, as dores passaram e, de repente, era um momento perfeito, só nosso, mágico. Foi assim durante seis meses, até ambos querermos e, de forma igualmente natural, esta jornada ter terminado.

 

Segunda parte (Teresa)

Fast forward dois anos e, quando a Teresinha nasceu, eu já sabia ao que ia. Achava eu. 

A verdade é que cada bebé é um bebé e, como elemento fundamental nisto da amamentação, pode influenciar muito. 

Da segunda vez, embora tenha sido igualmente doloroso, não cometi alguns erros. A “subida de leite” foi um pouco mais controlada e tranquila. Fiz alguns ‘truques’ que ajudaram. E sabia que tudo ia melhorar, passar e que dentro de dias, poucas semanas, ia-se converter numa experiência positiva.

O início foi igualmente mau em termos de dores, feridas e afins. Quis ter logo desde o primeiro momento alguém para me acompanhar e tirar todas as dúvidas neste processo e foi por isso que contactei a Cristina, da Amamentos, para estar connosco em casa logo no primeiro dia.

Toda a gente achava que a pega dela estava óptima, mas a verdade é que me continuou a doer durante longas semanas e ela fazia uns ‘estalinhos’ que só passaram ao final de dois ou três meses e ao mesmo tempo deixavam entrar mais ar, causando mais gases e cólicas. 

Foi uma jornada muito mais conturbada, muito menos tranquila. Ela era muito sôfrega a mamar, tinha bastante refluxo, irritava-se enquanto o leite não vinha e engasgava-se quando o fluxo era maior. As dores persistiram mais de dois meses e em algumas alturas pensei em dar simplesmente biberon. Só não o fiz porque acho mais prático não ter de estar preocupada com toda a logística dos biberons e ter o alimento disponível a qualquer hora, em qualquer lugar.

Achei muitas vezes que iria dar três, quatro meses e pronto. Entretanto chegámos aos cinco e, por vários motivos, a nossa jornada terminou. 

A vantagem de ter sido a segunda experiência é que, apesar de tudo, estive sempre mais confiante e não foi preciso recorrer ao suplemento.

 

Os ‘erros’ que cometi da primeira vez

  • tirar com a bomba em plena subida de leite (a bomba deve estar guardada nestes primeiros tempos e começar a ser usada só quando a amamentação está bem estabelecida)
  • usar mamilos de silicone (apesar do alívio temporário por causa das feridas, não deixa de ser uma tetina e faz com que o bebé não faça uma boa pega)

Dicas que podem ajudar

  • Ter um contacto à mão a quem recorrer desde o primeiro momento, ainda no hospital ou assim que se vai para casa – aqui ficam alguns: SOS Amamentação – linha de apoio das 10h às 18h – 213 880 915; Amamentos (Cristina Pincho); Centro Pré e Pós Parto.
  • Envolver o Pai no processo, eles não amamentam mas podem ser uma parte muito importante e ajudar-nos com algumas coisas
  • Dar em livre demanda total nas primeiras semanas até se começarem, naturalmente, a estabelecer alguns padrões/horários
  • Acordar para mamar? Durante o dia, sim! Se o bebé fizer longas sestas durante o dia, provavelmente não irá querer compensar à noite. Alguns bebés (sobretudo os mais pequeninos) estão meios ‘adormecidos’ nos primeiros dias ou semanas e até podem entrar num modo ‘poupança de energia’, em que dormem e não se alimentam o suficiente. Uma forma de garantir que o bebé se alimenta é dar de mamar no máximo de 3 em 3 horas (às vezes os intervalos podem ser bem menores e é normal), pelo menos durante o dia. Durante a noite nunca tive de os acordar para mamar, até porque sempre aumentaram bem de peso, mas cada caso é um caso.
  • Durante a subida do leite, fazer uma massagem antes do bebé mamar, se necessário, e depois, para esvaziar a mama e evitar mastites
  • Utilizar os discos de hidrogel da medela e/ou folhas de couve para aliviar as dores 

O que aprendi com estas duas jornadas

Que nenhum caso é igual. Podemos ter a sorte de ter facilidade a amamentar e provavelmente vai ser assim com todos os filhos. Podemos ter azar num, ou ser difícil sempre. 

Mais vale manter expectativas mais baixas. E procurar ajuda especializada o mais cedo possível, se acharmos que precisamos. Alguém em quem confiemos e a quem possamos recorrer continuamente.

Não há certo nem errado. Há o que nós acharmos e sentirmos que é melhor para nós – Mãe e bebé. Há que confiar no instinto e deixar as pressões e julgamentos lá fora.

 

 

Aqui está alguma informação útil da DGS

A Joana também já tinha partilhado um pouco da sua experiência aqui

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Imagens pela lente da querida Carmo.

Escrito por: Francisca

Alfacinha e fã assumida da sua cidade. Nasceu e cresceu em Lisboa e embora adore sair e viajar, gosta sempre de voltar. Gosta de dias de sol, flores campestres, coisas imperfeitas e mergulhos no mar. Ler mais.

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