Uma casa onde a simplicidade se vive devagar

A história desta house tour começa um bocadinho ‘ao contrário’. Foi a Filipa que, um dia, nos desafiou a eternizar a sua casa em forma de fotografias, texto e vídeo. Já conhecíamos o Slower, a plataforma que criou para nos inspirar a viver mais devagar, e já tínhamos sido desafiadas pela própria para fazer parte da sua rubrica sete dias sete pratos (podem ver aqui e aqui).

 

 

O email que nos chegou nesse dia começava assim:

Esta casa tem um significado e vivência especiais por várias razões. Estou cá há 7 anos. É a minha primeira casa “sozinha” e foi uma tábua de salvação numa altura incerta. É um apartamento de rés-do-chão e uma casa de porta aberta a todos os miúdos do prédio. São 8 e os finais de tarde são quase sempre passados na rua a brincar, o que é uma maravilha.

Neste momento o meu senhorio – como tantos casos recentes em Lisboa – pretende não renovar contrato, pelo que é muito possível que daqui a 1 ano já não esteja cá. Tenho pensado muito em tudo o que esta casa nos tem trazido… e às tantas lembrei-me, ao ver as vossas house tours, que essa podia ser uma forma de a celebrar.

 

Não hesitámos um segundo quando vimos as fotografias que a Filipa nos enviava da casa, só para o caso de ainda restarem dúvidas.

Uns meses depois, numa manhã fria de Janeiro, a Filipa recebia-nos em casa, com um chá quente e um sorriso na cara.

Entramos a adivinhar um ritmo calmo e é isso mesmo que encontramos: paz.

É domingo de manhã e, apesar de estarmos no centro da cidade, quase que parece que estamos numa vila pequena, onde toda a gente se conhece e a porta da frente está sempre entreaberta. Os miúdos jogam à bola no páteo da entrada e nós conversamos com a Filipa, com a música de fundo a ecoar pela casa.

A luz que entra pela sala faz dela a divisão mais apetecível. O chão de madeira, antigo, oferece um conforto imenso. Vamos passeando pelos quartos de forma descontraída, à medida que a Filipa nos vai contando um pouco mais sobre esta casa, a vida em família, os objectos com história e outras tantas peripécias. É sempre assim que gostamos de fazer isto. Quando damos conta, já temos tudo o que precisamos – fotografia e vídeo – mas, por nós, demorávamo-nos na conversa, enquanto bebíamos mais uma chávena de chá.

A decoração faz-se de muitos pormenores e objectos especiais, uns antigos, de família, outros encontrados na rua, outros que vieram de casa de uma tia. Tudo se conjuga com simplicidade e perfeição. Afinal, a Filipa vive mesmo como preconiza – devagar.

O que mais gostas na vossa casa?

Temos sido muito felizes nesta casa, por uma série de razões. Na altura tinha-me separado e andava à procura de uma casa que fosse perto da escola dos miúdos, do pai deles, dos nossos amigos. Por questões afectivas e também práticas.

Ao fim de 1 mês encontrei esta, que era num piso térreo e com um pátio na frente da casa. Só isso, depois de ter vivido num 5º andar sem elevador era um sonho. Melhor mesmo, só tendo um acesso a um jardim mesmo à porta de casa.

Depois entrei na casa e tudo parecia à nossa medida, o tamanho, a distribuição das divisões. E, coisa rara neste tipo de construção e com esta area, tinha 10 janelas. Na altura nem me dei bem conta disto, mas senti logo uma boa energia com a casa. E numa altura de mudanças difíceis, boas energias eram tudo, ou quase tudo.

Depois vieram novos vizinhos e mais crianças. Chegaram a ser 9 numa altura. A porta passou a estar sempre aberta, sobretudo no Verão e o entra-e-sai é constante. Há muita brincadeira de rua, o que é uma alegria para todos.

 

O que consideras essencial para um ambiente feliz?

Luz e boa vizinhança. O resto estica, encolhe, faz-se.

 

Qual o objecto a que dás mais destaque?

Seria mais fácil enumerar os que não me dizem tanto. As andorinhas sobre a minha cama são  especiais, um presente das minhas amigas mais que família. A tábua da mesa de jantar de uma amiga, sobre os pés da mesa de costura da minha tia. A caixa dos batons vermelhos da minnha avó. A mesa de cabeceira apanhada na rua. Fotografias e desenhos dos miúdos e de amigos… Podia continuar. Mas talvez o objecto mais emocional seja a fotografia grande da nossa sala. Foi tirada na praia onde passava férias em criança e faz parte do projecto “Do que nos lembramos quando nos lembramos de nós“. Como o nome do projecto diz, é parte da nossa história.

Que características definem a vossa família?

Somos uma família de 3, eu e os meus filhos Alice (11 anos) e Vicente (10 anos). A Alice é musical, independente e criativa. O Vicente é louco por futebol e é um miúdo tranquilo e generoso que se dá bem com toda a gente.

Temos os 3 feitios e gostos bem diferentes, mas normalmente andamos a um ritmo descontraído. Faço por termos tempo livre e horários pouco preenchidos. Os miúdos têm bastante rédea solta e rua.

Estou a adorar esta idade deles, chegámos a uma cumplicidade divertida em que nos conhecemos muito bem e rimo-nos com manias de todos. Claro que há momentos em que não é assim, como em todas as famílias, faz parte.

 

Como surgiu o Slower?

Surge da vontade de partilhar um diálogo interno recorrente sobre simplicidade. Sobre ser mais inteira e ter mais tempo, para mim e para os miúdos. Sobre o desafio de viver com menos e bem, senão melhor.

 

Esperamos que esta família não tenha de abandonar este ninho tão bom que aqui construiu mas, se tiver, temos a certeza que será para encontrar outro cantinho ainda mais especial.

Escrito por: Francisca e Joana

Somos a Joana e a Francisca, alinhamo-nos na simplicidade das coisas e complementamo-nos nas diferenças do dia-a-dia. Queremos partilhar o que nos inspira e o que nos leva a ser mais felizes. Acreditamos que esta partilha tem também o poder de inspirar o mundo a fazer o mesmo. Ler mais.

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