O quarto trimestre

O parto é um dos eventos mais marcantes e traumáticos na nossa vida, na perspectiva de seres humanos. Não nos lembramos como é nascer, mas basta observarmos os nossos filhos ou outros bebés para percebermos que deve ser de facto uma grande mudança. Também não é por acaso que nascemos totalmente dependentes, enquanto a maior parte dos animais, quando nascem já sabem andar.

Os primeiros meses de vida de um bebé são de adaptação ao mundo exterior e existem modificações extraordinárias. É uma fase em que é crucial que o bebé sinta segurança e conforto, pois passa do ambiente intra-uterino, sempre quente, confortável, alimentado, embalado, para o mundo cá fora, cheio de estímulos novos. É por isso que os três primeiros meses de vida são referidos como o quarto trimestre da gravidez, em que o objectivo deve ser recriar o ambiente a que o bebé estava habituado dentro da barriga da mãe, de forma a suavizar esta transição e adaptação.

Este conceito é trazido por Harvey Karp, pediatra norte-americano, que defende que o quarto trimestre é um conforto agradável para os bebés ‘fáceis’, mas absolutamente essencial para os mais fussy. Além disso, ele menciona também que a ausência deste quarto trimestre é que está na base das cólicas, normalmente as ‘culpadas’ que servem para explicar o choro ou comportamento mais agitado dos bebés.

O que este pediatra descobriu, através de anos de estudo e prática, é que existe uma forma de activar um reflexo de calma nos bebés, através de cinco passos. Estes cinco passos visam recriar o ambiente na barriga da mãe, em que o bebé estava sempre em posição fetal, embalado pelo movimento e com um ruído constante que é, aparentemente, mais alto do que o de um aspirador. Daí a eficácia comprovada da utilização de white noite para acalmar os bebés e fazer com que durmam mais tranquilamente.

Este método consiste então em 5 S’s:

  • Swaddling: embrulhar o bebé pode ajudar a acalmar o bebé e a que durma melhor (existem swaddles próprios para o efeito e deve ser bem feito para que não fique largo/solto)
  • Side/stomach: quando o bebé está a chorar muito ou muito agitado, pegá-lo de lado ou de barriga para baixo (nunca para dormir, a posição recomendada é sempre de barriga para cima)
  • Shhh: o tal white noise, ou simplesmente fazer ‘shhhh’ enquanto embalamos o bebé, pode ser suficiente para o acalmar
  • Swinging: um embalo ritmado
  • Sucking: chuchar é a cereja no topo do bolo para acalmar o bebé (seja uma chupeta, a mamar ou mesmo um dedo)

Idealmente, estes cinco passos devem ser todos combinados, mas como todos os bebés são diferentes, podem descobrir-se combinações que resultem melhor do que outras.

Durante os três primeiros meses sempre ’embrulhei’ os meus filhos para dormir e conseguiam claramente dormir períodos mais longos porque ficavam mais aconchegados e não se acordavam tanto com aqueles reflexos que os recém-nascidos têm. O white noise também sempre foi um bom aliado, sobretudo neste início. Em momentos mais agitados, tentei estes cinco passos combinados e a verdade é que resultou sempre.

Também adoravam andar no pano, bem aconchegados e juntinhos a mim. Mesmo nos momentos em que estavam mais agitados, acalmavam sempre no pano/sling. Imagino que não haja melhor sensação para um bebé nesta fase do que sentir-se novamente como se estivesse dentro da nossa barriga, a ouvir o nosso coração a bater.

A eterna discussão sobre ‘habituar mal os bebés’ ou ‘mimá-los demasiado’ não faz qualquer sentido. Os bebés, sobretudo os recém-nascidos, não conhecem outra forma de comunicar, além do choro. Se estão incomodados, com fome, dores, frio ou outro desconforto, choram, como forma de pedir ajuda. Como pais, cabe-nos apenas tentar perceber qual a necessidade do bebé e atendê-la, mesmo que às vezes a sua necessidade seja ‘só’ colo ou embalo.

A boa interacção entre o bebé e os pais tem um efeito positivo sobre o seu desenvolvimento. Rodeado de afecto, o bebé percebe que consegue comunicar e que os seus pedidos são correspondidos. Fazer um relato de tudo o que rodeia o bebé, observar de que sons ou imagens é que ele mais gosta, são óptimas formas de interagir com o bebé. Durante o primeiro mês, todos os estímulos devem ser apresentados de uma forma lenta e suave. O tacto é uma das mais importantes fontes de informação acerca do mundo exterior e é um dos sentidos que pode ser mais estimulados durante estes primeiros meses, através da apresentação de diversos objectos, com formas e texturas diferentes.

Enquanto está acordado e bem disposto, o bebé deve ser colocado na posição de barriga para baixo (tummy time), idealmente 5 a 10 minutos todos os dias. Esta posição é importante para fortalecer os músculos das costas e do pescoço, fundamentais para uma boa postura e para movimentos futuros.

Estes primeiros meses também são importantes para cultivar hábitos e rotinas. Às vezes os bebés podem vir com os sonos ‘trocados’ e por isso é importante ajudá-los a distinguir bem a noite do dia. O Lourenço veio com ‘jet lag’ e foi muito difícil, porque no primeiro mês não adormecia, muitas vezes, até às 6 ou 7 da manhã.

Embora nesta fase muitos bebés só comam e durmam, é importante estabelecer desde o início que o sono nocturno seja feito no quarto, às escuras, sem estímulos e sem ruídos e que o sono diurno seja feito com claridade, na sala ou ao pé de nós (só até aos 3 meses). O tema do sono, que dá pano para mangas, merecerá em breve um artigo próprio.

Esta é uma altura cansativa e desafiante para nós, pais. Tudo é novo, mesmo quando se trata de um segundo filho (imagino que, por um lado, vá ficando mais fácil à medida que se trata do terceiro e por aí fora; por outro lado, a disponibilidade para o bebé e mesmo para os outros filhos não é a mesma). À medida que as semanas vão passando o bebé fica mais desperto, dá-nos os primeiros sorrisos, interage mais. As melhores brincadeiras que podemos fazer com eles são com as nossas caras e com as nossas mãos, através do toque ou de massagens, e aproveitando momentos como o banho ou a muda da fralda para incorporar mais estímulos na rotina.

 

Dica!

Utilizo as apps The Bump (que também já usava durante a gravidez e é óptima porque tem sempre um resumo, semana a semana, do desenvolvimento do bebé, entre outros fóruns etc. sempre com informação fidedigna sobre temas relacionados com a maternidade) e a Wonder Weeks (esta é paga, ouvi maravilhas na altura do Lourenço e comprei, mas também tem muita informação sobretudo sobre o desenvolvimento mental dos bebés e ajuda-nos a perceber por que fases estão a passar).

 

Artigo escrito com base nos livros The happiest baby on the block e À descoberta do seu bebé.

Escrito por: Francisca

Alfacinha e fã assumida da sua cidade. Nasceu e cresceu em Lisboa e embora adore sair e viajar, gosta sempre de voltar. Gosta de dias de sol, flores campestres, coisas imperfeitas e mergulhos no mar. Ler mais.

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