Uma casa onde os animais têm muitas histórias para contar

1,2,3…é impossível saber ao certo quantos livros vivem nesta casa. Ou animais de 4 patas. Mas esta é, sem dúvida, uma casa de 3 pessoas felizes. A Ana trata os seus livros como se fossem membros da família, não fosse ela jornalista de profissão e editora da revista com mais estilo em Portugal. Neste pequeno T2 em Campo de Ourique vivem a Ana, o Jorge, o Miguel, o Yoshi, a Julieta, inúmeros animais em ponto pequeno e todas as histórias que as estantes guardam.

Antes do Miguel chegar os livros estavam todos no antigo escritório, mas assim que houve a necessidade de transformar aquela divisão, a Ana não teve dúvidas de que mereciam um lugar de destaque. Assim, fez algumas estantes à medida no corredor e na sala para abrigar todos aqueles filhos de muitas páginas.

A casa, apesar de pequena, parece que convida a que por lá fiquemos. O sofá da sala, as almofadas confortáveis, as plantas que nos fazem companhia e uma vontade gigante de pegar num dos livros e saboreá-lo sem pressa. Dali temos vista para a sala de jantar, uma mesa redonda recebe vários amigos durante a semana para jantar ou serve de apoio a um jantar volante.

O antigo escritório, agora quarto do Miguel, tem a luz mais bonita de toda a casa. Simples e minimalista, não fica nada a dever ao conforto. O berço irreverente, o tapete que enfeita a parede e a colecção de livros infantis, que o Miguel daqui a pouco tempo vai começar a explorar, fazem deste quarto um refúgio perfeito.

A Ana é apaixonada por ilustrações e as paredes demonstram isso maravilhosamente. As pilhas de revistas espalhadas pela casa denunciam outra das suas paixões. Aqui há espaço para tudo. Um pequeno bar, um closet que dá entrada ao quarto da Ana e do Jorge, uma bonita zona de trabalho no meio da sala e até a espreguiçadeira do Miguel tem um lugar de destaque junto a uma das janelas.

 

Esta é a tua casa de solteira, que adaptações tiveste de fazer para receber o Miguel e passarem a ser uma família de três?

Nem me lembrem, foi um Tetris. A principal adaptação foi mesmo arranjar espaço para fazer o quarto dele. Tínhamos um escritório que já nem era bem escritório – era mais uma sala de arrumos – com duas estantes cheias de livros, um charriot com roupa, caixas com as mais diversas coisas e até um sofá antigo de três lugares. Tudo o que não cabia no resto da casa, basicamente. Quando comprei esta casa sempre imaginei que quando tivesse o primeiro filho ele iria ficar ali, mas no dia de começar a “destralhar” pareceu-me impossível. Aos poucos, a coisa foi-se fazendo. Comecei por arranjar novos donos para os móveis e acabaram por ir todos para casas de diferentes amigos que por coincidência estavam a precisar. Fiz uma seleção dos livros que queria mesmo e dos que podia dar: os primeiros ficaram nas estantes que mandei fazer à medida, no corredor, os outros entreguei numa bibloteca aqui do bairro. Lembro-me que no auge do caos pedi ao Jorge para tirar umas fotografias da confusão, para o diário de gravidez que estava a fazer, e para poder ter um registo do antes e depois. Foi mesmo um processo longo, e às vezes sinto falta de ter um sítio onde pôr as coisas que não sei onde guardar. Mas no fundo isso ajuda-nos a ser mais seletivos, a ficar apenas com aquilo que nos faz mesmo felizes. E adoro o quarto do Miguel, muito mais do que alguma vez adorei o escritório.    

 

O que é que te ajuda a estabelecer o sentido de “casa”?

Acho que é uma conjugação de coisas, materiais e não materiais. Eu gosto de objetos, e acho que há coisas que já podem transmitir identidade: sinto-me em casa com os meus livros, os quadros, as pilhas de revistas no chão, agora os brinquedos do Miguel espalhados pela sala… Até costumo dizer que acho muito bonitas aquelas casas minimais – e deve ser muito mais fácil limpar-lhes o pó -, mas para mim iria ser como estar num museu. Gosto de estantes cheias, de plantas, do meu cantinho da maquilhagem, de peças antigas e com história, e tudo isso ajuda-me a sentir em casa. E depois há aquela sensação de ser o único sítio onde podemos estar de pantufas. Onde queremos estar de pantufas, aliás, sem artifícios, confortáveis. Nós os três e os gatos. Para mim é isso a nossa casa.   

 

Tens ideia de quantos livros tens? Já os leste todos? Se quiserem aumentar a família os livros vão convosco?

Acho que são mais de mil, e na verdade nem sei como é que cabem num T2+1 de 90 metros quadrados [risos]. Eu sempre adorei livros, desde miúda lia à mesa e no carro, era ao contrário da maioria dos miúdos e às vezes a minha mãe até me ralhava porque não queria parar de ler nem para comer. Depois de tirar jornalismo tive a sorte de começar a escrever sobre livros, e fiz isso durante muitos anos, primeiro no Público e depois na Time Out, por isso fui juntando muita coisa. Ainda não os li a todos e sei que provavelmente não vou conseguir lê-los no meu tempo de vida, mas gosto de os ter por perto. E como estes já são uma seleção, à partida vão connosco para onde formos.  

E os vossos gatos? Têm uma boa relação com o Miguel?

Para já têm bons reflexos, porque fartam-se de fugir dele. O Yoshi, que é o gato tigrado, já vai deixando fazer uma festa ou outra. A Julieta, que é a cinzenta, foge logo assim que o Miguel se aproxima, com medo. Acho que ainda não percebeu bem quem é este ser barulhento. Ele adora-a na mesma e fica todo contente sempre que a vê. Até já sabe chamá-los com as mãozinhas. Um dia destes vai andar a correr atrás deles, já estou mesmo a ver.  

 

Algum objecto que te marque ou tenha um história importante para ti?

Sou apaixonada por ilustração e gosto de vários quadros que tenho, e também adoro peças em cerâmica e ando muito virada para aí ultimamente, mas os objetos mais importantes são mesmo aqueles que herdei do meu avô paterno, que morreu quando eu era bastante nova mas de quem me lembro muito bem. Pelo que percebo, era a pessoa mais parecida comigo da família – ou eu é que sou muito parecida com ele – e consigo ver isso até nas coisas que guardei, desde as máquinas fotográficas à coleção inacreditável de fósforos que ele tinha. Embalagens lindas, que colecionava das viagens – ele viajava muito – e que nalguns casos acabam por ser uma espécie de história do design de meados do século XX. Tenho muitas coisas dele espalhadas por aqui, desde um saca-rolhas que é uma âncora em miniatura à mesa da sala de jantar. O meu avô já morreu há mais de 25 anos mas as coisas continuam aqui, e isso comove-me.

 

As estantes que fizeste no corredor para receber os livros que estavam no quarto, que agora é do Miguel, são inflexíveis na medida que não as podes mudar de sítio porque foram feitas à medida. És decidida quando à decoração? Ou de tempos a tempos apetece-te mudar?

Para mim a decoração é uma mistura de funcionalidade e gosto. Tenho vários móveis feitos à medida, não só as estantes mas também o roupeiro do Miguel, o nosso closet e até a cama, porque essa foi a forma que encontrei de aproveitar o espaço de uma forma mais eficiente, e de tirar partido do pé direito alto. Mas antes de fazer qualquer coisa do género, normalmente penso muito, tiro medidas, precisamente porque sei que é uma coisa para ficar e que não vai dar para andar a arrastar de um lado para o outro. E adapto o que já tenho. No caso das estantes do corredor, por exemplo, acabei por tirar os quadros que estavam na parede em frente, para não ficar demasiado cheio. Nesse aspeto não, não sou decidida e mudo muito, mas geralmente coisas pequenas – uma moldura aqui, um puxador ali, pormenores que podem dar quase a sensação de uma divisão nova. Agora que penso nisso, vejo que todos os móveis que mandei fazer são brancos e de linhas muito simples. Dessa forma não cansam e posso usá-los como um ponto de partida para brincar um bocado. Uma das coisas que gosto mais nas estantes é a fila de animais que acompanha todo o corredor. São sempre um sucesso quando temos miúdos cá em casa e quebram o ar de biblioteca certinha. Para mim é importante algum sentido de humor.  

A revista Observador Lifestyle é o teu outro bebé. Muitos parabéns, mais uma edição fantástica! Como é que conseguiste conciliar os dois, que são ambos tão dependentes de ti?

É engraçado dizerem isso porque eu senti que a primeira foi de facto outro bebé: saiu numa quinta-feira, dia 16 de novembro de 2017, e o Miguel nasceu na quinta-feira seguinte, dia 23. Para este segundo número acabei por ter mais tempo (e não andava a passear uma melancia do Entroncamento debaixo da camisa, por isso foi muito mais fácil), mas para conseguir conciliar tudo foi fundamental o apoio da minha mãe, que fica com o Miguel diariamente, e a ajuda do Jorge, que segurou as pontas cá em casa. Acabei por escrever muitos textos de noite, com ele já a dormir, mas mesmo sem estar a fechar uma edição, prefiro sentar-me ao computador nessa altura do que sacrificar os fins de tarde. Porque isto passa a correr. Quero sentir-me realizada – e a revista realiza-me muito – mas acima de tudo quero sentir que consigo acompanhá-lo. E quero estar presente. 

 

Que esta casa continue a guardar as muitas histórias que contam e obrigada, Ana, por nos permitires contar um bocadinho da vossa!

 

Galeria completa e vídeo aqui.

Escrito por: Francisca e Joana

Somos a Joana e a Francisca, alinhamo-nos na simplicidade das coisas e complementamo-nos nas diferenças do dia-a-dia. Queremos partilhar o que nos inspira e o que nos leva a ser mais felizes. Acreditamos que esta partilha tem também o poder de inspirar o mundo a fazer o mesmo. Ler mais.

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