Parto, a minha experiência

Na sequência deste artigo sobre o parto, e de outros relacionados com esta temática, vamos continuar a abordar este assunto. O objectivo é partilhar informação que nos parece relevante para contribuir para uma experiência de parto mais positiva, ao mesmo tempo que partilhamos algumas histórias e experiências reais.

Mais um artigo em colaboração com a médica especialista em Ginecologia-Obstetrícia, Patrícia Pinto, e com a partilha de uma experiência real, a minha.

A Organização Mundial de Saúde publicou, recentemente (fevereiro de 2018), orientações sobre o parto*, evidenciando alguns aspectos no sentido de se tornar menos interventivo. Entre eles, destacam-se:

  • Diferença entre fase latente e fase activa do trabalho de parto (TP), ou seja, altura em que se entra mesmo em trabalho de parto passam a dever ser considerados 5 cm e não os ‘antigos’ 3cm. Não devem ser tomadas atitudes de acelerar o trabalho de parto (romper a bolsa amniótica ou iniciar oxitocina) antes de serem atingidos os 5cm (salvo em casos excepcionais).
  • A própria duração da fase activa deve ser considerada no máximo até 10h (multípara – mulheres que já tiveram outro(s) filho(s)) e 12h (nulípara – primeiro filho) de forma a evitarem-se cesarianas por “paragem de progressão do trabalho de parto”.
  • Após a dilatação completa, ou seja, quando se atingem os 10 cms, é importante dar tempo às mulheres: novamente até 3 horas nas nulíparas e 2 horas nas multíparas, sendo que estes valores podem ser superiores em caso de epidural.
  • A mulher deve escolher a posição do parto e só fazer esforços expulsivos quando sentir vontade.
  • A mulher deve ter liberdade de movimentos durante o trabalho de parto e poder escolhes o método de analgesia.
  • Corte do cordão umbilical apos 1º minuto de vida.
  • Episiotomia apenas quando necessário e nunca por rotina.
  • Contacto pele a pele do recém-nascido com a mãe logo após o parto.

 

Algumas destas orientações não serão novidade para grávidas informadas, que estão motivadas para um parto natural. Muitas destas coisas são abordadas nos cursos de preparação para o parto, mas ainda assim há algumas coisas que nos escapam, que não damos importância suficiente ou que não nos informam.

Acho que desde que engravidei pela primeira vez, sempre pensei que gostava de ter partos ‘naturais’. Fizemos um curso de preparação na altura, que foi útil e muito importante. Aprendemos uma série de coisas e ganhei confiança pensando que estava preparada para o parto. A verdade é que, mesmo adorando a minha médica, que seguiu toda a minha gravidez e me fez o parto, mesmo tendo tido um parto num hospital privado, com todas as comodidades e boas condições, aquele não foi, de todo, o parto que sonhei.

Se me perguntassem logo na altura, estava tudo bem. O meu bebé tinha nascido bem e estava óptimo, tudo correu como previsto, ao fim de dois dias fomos para casa. Mas, com o passar do tempo, alguma reflexão e uma segunda gravidez, tudo ficou bastante claro rapidamente. Queria um parto diferente, agora que tinha mais informação ainda, sabia acima de tudo o que queria evitar.

Ainda hoje, depois de ter passado por uma segunda experiência bastante diferente da primeira, sei que aprendi muitas coisas e tenho ainda mais informação. No entanto, tenho também a consciência de que isso não é tudo, porque há uma séries de factores e variáveis que não controlamos.

 

Resumidamente, o que não gostei na primeira experiência teve a ver com:

  • ansiedade/desconhecimento de ser a primeira experiência: fui logo para o hospital mal comecei com contracções (perfeitamente suportáveis), o que fez com que chegasse lá numa fase muito inicial de TP e me começassem logo a dar oxitocina para desencadear/acelerar as contracções e, consequentemente, o TP.
  • desconhecimento do que eram procedimentos ‘normais’ ou não: mal fui internada, algaliaram-me (não questionei logo e até hoje não percebi bem porquê, mas talvez tenha tido a ver com o facto de a sala de dilatação onde estava não ter casa de banho). Como é óbvio, é totalmente desnecessário e uma coisa que não teria deixado que acontecesse, se tivesse mais informação.
  • sentir uma certa ‘pressão’ para que o TP fosse rápido, para que a bolsa rompesse (acabaram por rompê-la artificialmente), para que tudo acontecesse de forma rápida. Felizmente, acabou por acontecer tudo em cerca de 10 horas e terminou num parto normal com episiotomia, ventosa e bastantes pontos (ouch!). Mas como se sabe, muitos destes casos terminam em cesarianas por se considerar que se está há ‘muitas horas’ em trabalho de parto ou que não evolui…
  • o facto de ter ido para a bloco de partos assim que atingi a dilatação completa e de me terem mandado fazer força logo, sem sentir essa necessidade (certo que estava anestesiada, mas ao longo de todo o processo, embora nunca me tenha sentido mal tratado ou desrespeitada, também nunca senti que se importassem realmente com a minha vontade ou o que queria).
  • o acompanhamento no pós-parto, nomeadamente o serviço prestado pelas enfermeiras no apoio à amamentação (saí do hospital a dar suplemento – eu, que estava altamente motivada para amamentar – porque na segunda noite uma das enfermeiras achou que o mal do meu filho era fome e eu, cansada e fragilizada, cedi.) este tema também dá pano para mangas e em breve também vai merecer atenção especial.

 

Na segunda gravidez, comecei a sonhar com o meu ‘parto ideal’. Ainda cheguei a falar com doulas e reconheço a sua importância no acompanhamento da gravidez e do parto (em breve, exploraremos também este tema). Mas com o avançar das semanas fui ganhando mais confiança em mim, no meu corpo, no meu bebé. Fui percebendo o que tinha ‘falhado’ na primeira vez e como podia melhorar isso. Começando por mim, a estar mais consciente e conectada com o meu corpo, com aquela experiência. Isso começou na minha vontade, claro, na leitura de alguns livros, de que já falei aqui e aqui,

Passou também por procurar toda a informação que precisava para tornar a experiência mais de acordo com o que idealizava, junto da minha médica e dos hospitais onde estava a considerar ter o parto. Fiz visitas (é sempre possível ir visitar as maternidades e conhecer um pouco melhor as realidades), falei com pessoas que já tinham tido experiências nos sítios onde estava a pensar ter.

Uma das coisas que tinha pensado era que desta vez gostava de fazer a maior parte do trabalho de parto em casa. Queria um parto mais natural, com menos intervenção médica, com menos medicação, dentro do possível. Gostava de ter mais tempo pele com pele logo que nascesse. De ser eu a ‘puxá-la’, se fosse possível.

No final, fui mais cedo para o hospital do que tinha idealizado. Uma perda grande de sangue levou-nos às urgências de madrugada. Já não nos deixaram sair. A partir daí, parecia que já tinha visto aquele filme, só que desta vez tudo parecia ter uma justificação válida. Não podia ficar naquela situação só à espera que se resolvesse naturalmente. Rompimento de bolsa, oxitocina para acelerar. Dores de morte, que quis aguentar e, quando já não queria, a epidural não fazia efeito (não querias uma coisa mais ‘natural’?! Então aguenta-te!)

O segundo filho é muito mais rápido. Yeah, right. 10 horas passaram. 10 centímetros de dilatação. Uma festa. Vai ser mesmo aqui (o Pai em choque – como assim, aqui, neste cubículo minúsculo?!). A anestesia fez efeito (finally!). Entrou a minha grande amiga P., no seu primeiro dia de trabalho ali, também ela grávida. Um parto rápido e emocionante, o choro da Teresinha, está tudo bem, e fui eu a puxá-la para o meu peito. Se foi tudo como sonhei, desde o princípio? A começar pela ida precoce para o hospital, a medicação, a epidural não fazer o efeito desejado…não controlamos nada. Mas se mudava uma vírgula de como terminou? Não.

 

*Para quem tiver curiosidade, deixamos os links para o slideshow da OMS
https://www.dropbox.com/s/c02wlocv5itbqi5/WHO%20IPC%20guideline%20slidedocs_full%20version_share%20with%20COs.pptx?dl=0#
e para a publicação completa
http://apps.who.int/iris/bitstream/handle/10665/260178/9789241550215-eng.pdf;jsessionid=33BD9A1C3B185E5E9C3DB4918F50D2D6?sequence=1

Escrito por: Francisca

Alfacinha e fã assumida da sua cidade. Nasceu e cresceu em Lisboa e embora adore sair e viajar, gosta sempre de voltar. Gosta de dias de sol, flores campestres, coisas imperfeitas e mergulhos no mar. Ler mais.

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  • Pela descrição que faz, parece que o primeiro foi bem mais tranquilo que o segundo. Agora há imensas teorias sobre os partos mas a realidade é que o mais importante é correr tudo bem para a mãe e para o bebé. Por vezes essa naturalidade tão almejada pode levar a grandes complicações, que no fundo era o que acontecia antigamente quando os partos eram em casa.

    • Olá Teresa, obrigada pelo comentário.
      Tentando esclarecer, aqui o objectivo era partilhar: 1) informação, super importante para que todas as mulheres possam tomar decisões conscientes e tranquilas, e que tenham confiança nelas; 2) que nem tudo corre como planeamos/idealizamos, daí ser importante manter expectativas baixas e ser flexível.
      Partilhei a minha experiência e talvez esta segunda seja mais ‘intensa’ porque também é mais recente, mas a verdade é que foi uma experiência em que estive muito mais conectada comigo, com o meu corpo e muito mais consciente de todos os procedimentos o que, para mim, foi muito mais positivo.