Nove meses depois

O parto é um momento único na vida de uma mulher. Arrisco até a dizer, na vida da mulher, do casal, da família, e, claro, daquele bebé, que nasce. É o culminar de nove meses de gestação, é o fim da espera, é o início de uma vida. É muita coisa ao mesmo tempo e por isso um momento tão carregado de emoção.

Para quem ainda não foi Mãe ou para quem está grávida, pode representar um momento de expectativa, de algum medo, de dúvidas. E mesmo para quem já passou pela experiência, nada garante que vá ser melhor, nem sequer que vá ser parecido. Não há dois partos iguais.

O que é melhor para uma mulher pode não o ser para outra, mas, no limite, todas merecemos ter uma experiência positiva. Isso, para mim, pode significar um parto o mais natural possível, enquanto que, para outra mulher, pode significar uma cesariana sem qualquer dor.

O que é certo é que uma experiência de parto positiva implica um parto onde a mulher sente que tem liberdade de escolha, acesso a informação fidedigna, e que tem controlo sobre a sua experiência. Uma experiência de parto positiva não tem de ser ‘natural’ ou ‘sem drogas’, simplesmente as escolhas devem ser feitas em consciência e de acordo com a informação e não com o medo.

Pode-se ter uma experiência positiva no hospital ou em casa, com ou sem intervenção médica, numa cesariana ou num parto na água. Todas têm em comum uma coisa: a mulher lida com o tema de forma realista, pode escolher como e onde tem o bebé e sente-se empoderada pela sua experiência.

 

 

Hoje falamos deste tema, com a importante colaboração da médica ginecologista obstetra Patrícia Pinto, não numa perspectiva de influenciar ou de dizer o que é melhor, mas com a intenção de informar e desmistificar.

 

Comecemos por desmistificar. Existe uma “experiência de parto ideal”?

A noção de uma boa experiência durante o parto varia muito de mulher para mulher, daí a importância de se informarem durante a gravidez dos riscos e benefícios de cada técnica, das técnicas de analgesia farmacológicas e não farmacológicas, duração do trabalho de parto, tipos de parto (eutócico = “normal”, instrumentado= ventosa ou fórceps e cesariana).

Para umas mulheres, uma cesariana electiva (“agendada”) é significado de uma óptima experiência, enquanto que para outras mulheres um parto normal sem analgesia epidural poderá ser a melhor experiência. Tendo em conta estes pressupostos, a grávida/o casal deverá expor os seus receios e dúvidas e informar-se junto do médico que vigia a gravidez ou da maternidade onde pretende ter o parto.

Outros factores a ter em conta são a vontade de ter mais filhos, os antecedentes pessoais e obstétricos da grávida e alguma complicação que seja detectada durante a gravidez que implique determinado tipo de parto ou alguma contra-indicação. Durante o trabalho de parto e o próprio parto existirá espaço para a discussão destas questões mas nunca com o tempo e ponderação como quando feita durante a gravidez.

 

Quais são os benefícios e riscos de um parto “normal”?

Segundo a OMS, parto normal define-se como “aquele que teve um inicio espontâneo, e que desde o inicio até ao parto se considera de baixo risco. O recém-nascido nasce de forma espontânea de apresentação cefálica (cabeça para baixo) entre as 37 e 42 semanas completas. Após o parto, mãe e bebé não apresentam complicações.”

Os benefícios, nestes casos, superam largamente os riscos. Para a mãe, a principal vantagem do parto vaginal é evitar a realização de uma cesariana. Outros benefícios são o tempo de recuperação inferior ao desta, menor tempo de internamento no hospital e maiores taxas de amamentação. Para o recém-nascido, a principal vantagem é uma adaptação fisiológica ao ambiente exterior em termos imunológicos, respiratórios e hematológicos com redução de síndrome de dificuldade respiratória e menores taxas de infecção.

Os riscos maternos estão essencialmente associados ao períneo com alguns dados controversos. Existe risco aumentado para lacerações de 3º e 4º graus que são risco de incontinência fecal. Em relação à incontinência urinária é difícil avaliar o seu risco excluindo o factor gravidez, no entanto, parece haver um risco aumentado em caso de parto vaginal.

Os riscos para o recém-nascido são essencialmente algum trauma que pode decorrer do parto, como lesão do plexo braquial em caso de distócia de ombros, embora estas também tenham sido descritas em cesarianas.

 

Em que casos é que há indicação para uma cesariana?

Na grande maioria dos casos, a gravidez corre sem intercorrências e é considerada de baixo risco. Existem no entanto situações consideradas de alto risco que podem ter indicação prévia para cesariana electiva ”agendada” seja por motivos maternos (patologia da grávida), motivos fetais (apresentação pélvica, patologia fetal, trigémeos), cirurgias uterinas prévias, entre outros. Podem ainda ser relacionados com o trabalho de parto e apenas ser diagnosticados durante o decorrer do mesmo (cesariana urgente ou emergente). Em qualquer um dos casos, é importante a grávida compreender os motivos e debater com o médico qualquer dúvida ou questão. 

 

Quais são os benefícios e riscos de uma cesariana?

Em caso de uma cesariana sem indicação formal, o principal benefício materno teoricamente descrito é a preservação do períneo e eventual redução do risco de incontinência urinaria ou fecal, ainda assim com alguns dados controversos. Os restantes benefícios estão relacionados com a redução do medo do parto e a necessidade de controlo da grávida sobre este.

Os benefícios neonatais são a redução do tempo do parto e do risco de trauma fetal.

Os riscos maternos da cesariana são, além de um maior tempo de internamento, maioritariamente relacionados com o facto da cesariana ser uma cirurgia. Assim, existe risco aumentado de hemorragia, complicações anestésicas, tromboembolismo, infecção, entre outros. Existem também riscos a longo prazo, que devem ser ponderados nos casos em que a mulher pretende ter mais filhos.

Os riscos neonatais são o maior número de taquipneia transitória do recém-nascido e síndrome de dificuldade respiratória, maior taxa de internamento em unidades de cuidados intensivos neonatais e menor desenvolvimento do sistema imunitário.

 

E quando o parto é induzido?

Por vezes o parto tem que ser induzido, ou seja, em vez do seu início de forma espontânea, as contrações uterinas são estimuladas de forma a ter um parto vaginal, seja por meio de fármacos ou de métodos não farmacológicos. O parto pode ser induzido por razões médicas em que a grávida ou o feto estão em risco. A indução do parto acarreta alguns riscos pelo que não deve ser instituída sem uma razão formal. Em caso de ausência de indicação médica esta não deve ocorrer antes das 39 semanas.

Nem sempre a indução é eficaz, principalmente se o colo uterino não está suficientemente maduro, aumentando o tempo de indução e o risco de cesariana por indução falhada.

 

O que é que a mulher pode fazer para se preparar da melhor forma para o parto?

Existem algumas atitudes que podem ser tomadas durante a gravidez para ajudar a ter uma melhor experiência relativamente ao parto. Essencialmente a base é a gestão de expectativas e a qualidade e quantidade de informação que o casal tem acesso, sendo por isso fulcral uma boa comunicação entre o casal e quem esteja a vigiar a gravidez. É importante reduzir o medo e a ansiedade de forma a permitir que a grávida tenha um parto de forma confortável, com confiança em si e na equipa à sua volta.

Pode ajudar frequentar Cursos de Preparação para o Parto, permitindo uma maior partilha de ideias e espaço para discutir algumas questões. Estão disponíveis normalmente nos hospitais da área de referência e hospitais privados, centros de saúde ou instituições privadas (ex. CPPP e Centro do Bebé, entre outros).

Sinto uma diferença considerável durante o parto quando a grávida frequentou previamente um curso de preparação, pelo que é altamente recomendável.

Os planos de parto são uma realidade crescente nas maternidades do nosso país, sendo que estes deverão ser discutidos com o profissional de saúde, seja em consulta prévia ou enviando por email para o responsável do Bloco de Partos. Não é de todo aconselhável fazer um plano de parto e aparecer com ele no dia sem ter discutido nenhum dos desejos presentes neste.

É benéfico a presença de alguém durante o trabalho de parto e parto, seja um familiar, o companheiro, uma doula ou um amigo/a.

Penso também ser benéfico a prática de exercício físico durante a gravidez. Não só é benéfico para a grávida e feto ao longo da gravidez, como prepara a mulher para o parto vaginal ou cesariana e ainda para o pós-parto. Existem cada vez mais opções e locais onde as grávidas poderão frequentar aulas específicas para a gravidez. 

Entre os exercícios recomendados durante a gravidez estão, por exemplo, caminhadas, natação e hidroginástica, bicicleta estática, Yoga e Pilates adaptados à gravidez, entre outros, que poderão ser realizados se discutidos previamente com o médico que vigia a gravidez.

Os exercícios que devem ser evitados durante a gravidez são desportos de contacto ou em que existe risco de lesão no abdómen, desportos com risco aumentado de queda como surf, equitação, ginástica, ski aquático e na neve, hot yoga ou hot pilates, mergulho ou desportos em grande altitude.

 

 

Em breve, vamos voltar a falar deste tema e de algumas experiências pessoais.

 

 

Para quem tiver interesse, o Positive Birth Movement é um movimento que tem encontros mensais para grávidas, em Lisboa, e que tem como objectivo precisamente falar sobre estes temas e ajudar a criar as melhores experiências de parto possíveis.

Escrito por: Francisca

Alfacinha e fã assumida da sua cidade. Nasceu e cresceu em Lisboa e embora adore sair e viajar, gosta sempre de voltar. Gosta de dias de sol, flores campestres, coisas imperfeitas e mergulhos no mar. Ler mais.

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