O que ninguém nos diz sobre o pós-parto

matrescencia

Quando uma mulher engravida, ocorrem várias mudanças, tanto ao nível físico como emocional, tal como na adolescência. Mas se é sabido a aceite unanimemente que a adolescência é um período de grande transformação, na gravidez essas mudanças não são tão reconhecidas.

Surge, por isso, a necessidade de abordar este tema, que muitas vezes aparece apenas referido e camuflado sob o termo “depressão pós-parto”.

Alexandra Sacks, uma psiquiatra norte-americana que se dedica ao estudo da psiquiatria da reprodução e trabalha com mulheres grávidas e no pós-parto, sugere uma nova palavra para definir esta transição das mulheres para a maternidade: matrescência. 

 

Matrescência, o nascimento de uma mãe

Foi na antropologia que encontrou este termo, porque na medicina ainda não existe muita informação sobre o tema e escreve-se sobretudo sobre doenças. Ora, como refere, este estado da mulher quando acaba de ser mãe não é uma doença. Estar desconfortável não é o mesmo que estar doente, e é isso que ela tenta explicar a todas as mulheres que a procuram depois de terem sido mães.

Não é coincidência que “matrescência” seja parecido com “adolescência”. Em ambas as alturas a transformação do corpo e a alteração nas hormonas levam a uma revolução na forma como uma pessoa se sente emocionalmente e sobre como se insere no mundo. Tal como a adolescência, a matrescência não é uma doença, mas como não está no vocabulário médico, e como não se fala sobre isto, está a ser confundida com uma situação mais grave chamada depressão pós-parto.

Alexandra Sacks explica, na sua TED Talk, o processo que vivemos quando somos mães. Os bebés humanos, ao contrário de outros animais, são especialmente dependentes. Não andam, não se alimentam sozinhos, são muito difíceis de cuidar. Como tal, a evolução ajudou-nos com uma hormona chamada ocitocina. É libertada por altura do nascimento e também através do contacto com a pele, e ajuda o cérebro da mãe a concentrar-se, a atrair a sua atenção, para que o bebé seja agora o centro do seu mundo.

Mas, ao mesmo tempo, a sua mente não está 100% ali, porque ela lembra-se de todas as outras partes da sua identidade — as outras relações, o seu trabalho, os passatempos, uma vida espiritual e intelectual, para não falar das necessidades físicas: dormir, comer, fazer exercício, fazer sexo, ir à casa de banho (sozinha, de preferência!).

Esta é a tensão de forças emocional da matrescência. Se as mulheres compreendessem o processo natural da matrescência, se soubessem que a maior parte das pessoas acha difícil passar por isto, se soubessem que esta ambivalência é normal e não é nenhum motivo de vergonha, sentir-se-iam menos sozinhas, sentir-se-iam menos estigmatizadas, e poderia até ajudar a reduzir as taxas de depressão pós-parto.

Por isso, Alexandra Sacks aconselha as mães a falarem mais sobre todo este processo e transição com outras mães, com amigas, com o marido – para que possam entender a sua própria transição e apoiá-las melhor.

 

A minha experiência

Há uma expectativa irrealista em relação ao que se sente nesta transição para a maternidade, e a maior parte das mulheres acha que não se sente como seria suposto: completa, feliz, confiante nos seus instintos.

Acho que grande parte desta expectativa vem das comparações e da pressão a que estas levam. Do bebé da vizinha, que “come e dorme, é um santo”, do instagram – dos feeds bonitos e imaculados, com bebés lindos bem vestidos e grande parte das vezes, a dormir (que paz, que descanso!), ou das mães que já estão mega fit a sair do hospital, dos comentários quando estamos ao pé de alguém e o nosso bebé faz um “han” – “hoje está chatinho, não está? o que é que se passa? só dorme ao colo? tem cólicas?!”.

Não tive um primeiro bebé fácil nem muito tranquilo. Sei que muito pode ter a ver com a forma como nós, mães e pais, lidamos com a nova situação (ansiedade, cansaço e privação de sono não são bons aliados nestes primeiros tempos), mas também tem a ver com o bebé, claro. 

Nesta segunda viagem ia com menos expectativas. Será como tiver de ser. Ainda nos estamos a conhecer, é certo. Nem um mês passou. Temos outro ritmo, dizem que à segunda também se levam as coisas com outra leveza. Se é assim, não tenho a certeza. Sei que temos outras preocupações com o filho mais velho, sei que temos necessariamente de ser mais práticos e fazer tudo com mais depressa. Sei que quando há uma noite menos boa, não dá para ficar na cama e compensar na manhã seguinte – a alvorada é entre as 7h e as 8h da manhã, custe o que custar, porque há um filho mais velho a acordar cheio de energia para o dia!

As primeiras semanas são de adaptação para todos – para a mulher, para a nova família que passa a ser de três, quatro, ou mais, e para todos os membros da mesma. São de conhecimento do bebé e da sua adaptação ao mundo cá fora. São muitas coisas para gerir da nossa parte: um corpo em recuperação e ainda irreconhecível, as dores e desconforto dos primeiros dias, a amamentação (esta pode dar pano para mangas), as noites, o cansaço (e a lista pode continuar). Não me lembro de outra mudança que seja tão grande, a todos os níveis, e tão impactante nas nossas vidas. 

Aprender a levar um dia de cada vez é sem dúvida a melhor estratégia. Hoje está assim, mas amanhã não sabemos. Normalmente, as cólicas passam de um dia para o outro. Normalmente, começam a dormir a noite toda de um dia para o outro. Normalmente, saem do nosso quarto de um dia para o outro. E, um dia, quando formos a ver, dormem bem, deixaram as fraldas, são independentes e crescidos e já não são os nossos bebés. Tudo passa. 

Mas o pós-parto é uma fase lixada – essa é que é essa. A maternidade tem muitas maravilhas, mas também tem muitos desafios e, para mim, esta fase continua a ser, sem dúvida, um deles. 

 

Quando nasce um bebé, nasce uma mãe também. A matrescência é profunda, mas também é difícil, e é isso que a torna humana.

 

Alexandra Sacks vai publicar um livro sobre esta temática no próximo ano. Podem ler este artigo escrito por ela e ver a sua TED talk aqui.

 

Photo by Julie Johnson on Unsplash

Escrito por: Francisca

Alfacinha e fã assumida da sua cidade. Nasceu e cresceu em Lisboa e embora adore sair e viajar, gosta sempre de voltar. Gosta de dias de sol, flores campestres, coisas imperfeitas e mergulhos no mar. Ler mais.

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