Síndrome dos Ovários Poliquísticos

Para algumas mulheres, este termo pode parecer chinês, para outras (não tão raras assim), é uma realidade. Achei importante trazer este tema, em colaboração com a médica especialista em Ginecologista/Obstetrícia Patrícia Pinto, não só porque tenho conhecimento de causa, como porque é mais comum do que possamos pensar e pode ser útil desmistificar algumas questões.

 

O que é a SOP (Síndrome dos Ovários Poliquísticos)?

A SOP caracteriza-se por alterações menstruais, nomeadamente ausência de menstruação ou períodos irregulares, múltiplos pequenos quistos nos ovários e aumento dos androgénios (hormonas masculinas). Está muitas vezes associada a obesidade e a níveis elevados de insulina pelo que pode constituir fator de risco para o desenvolvimento de diabetes e outras doenças.

O que causa a SOP?

A SOP ocorre em aproximadamente 5 a 10% das mulheres, não sendo totalmente conhecida a causa que a origina. Pensa-se que está relacionado com o aumento da hormona luteinizante (LH) e dos androgénios que impedem a formação de um folículo dominante que irá resultar na ovulação. Em vez disso, formam-se múltiplos pequenos folículos que nunca irão evoluir, pelo que a mulher acaba por não ovular.

Quais são os sintomas?

A SOP caracteriza-se por períodos menstruais irregulares ou ausência de menstruação (menos de 8 ciclos por ano), aumento da pilosidade na face, tronco e abdómen, acne, obesidade ou excesso de peso e dificuldade em engravidar. Importante referir que a síndrome pode estar presente na ausência de todas estas características.

Deve ser consultado um médico?

Sim, mesmo com sintomas ligeiros, a mulher deve ser avaliada em consulta e dependendo da situação poderão estar indicadas análises ou outros exames de diagnóstico como a ecografia ginecológica.

Qual o tratamento?

O tratamento depende sempre da idade e objetivo da mulher, isto é, se pretende engravidar, controlar os sintomas ou regularizar os ciclos. O tratamento mais frequente é a pílula contracetiva que, apesar de não curar, melhora os sintomas como os pelos faciais e a acne, além de regularizar os ciclos menstruais. Protege também o endométrio do risco de cancro. Outros tratamentos poderão estar indicados como os antiandrógenos, progestativos e a metformina. Por fim, de acordo com os sintomas de cada mulher, poderão ser feitos tratamentos específicos para a acne e pelos em excesso.

O que pode ser feito pela própria pessoa?

Se a mulher tiver excesso de peso ou for obesa, a perda de peso tem um impacto significativo, pelo que uma alimentação saudável aliada ao exercício físico fazem parte do tratamento de primeira linha da SOP.

E se a mulher quiser engravidar?

Não deve desanimar uma vez que a grande maioria das mulheres com SOP consegue engravidar, podem é demorar mais tempo a consegui-lo. Como disse anteriormente, na presença de excesso de peso, a perda de peso pode ajudar e muitas vezes é suficiente para regularizar os ciclos menstruais. Se mesmo assim, os ciclos continuarem irregulares é importante consultar um médico que poderá prescrever tratamentos que irão ajudar a ovular, aumentando as possibilidades de engravidar.

 

ovários poliquísticos

 

A minha experiência

Como se trata de uma síndrome, com um quadro de sintomas que pode variar, o diagnóstico nem sempre é óbvio. No meu caso, até querer engravidar pela segunda vez, nunca tinha tido um diagnóstico. Durante a adolescência e alguns períodos em que não tomei a pílula, tinha ciclos muito irregulares e por vezes muito longos (às vezes, de vários meses), mas a única coisa que me foi dita era que tinha ‘ovários preguiçosos’. Confesso que nunca me preocupei muito e, como tomava a pílula, não sentia propriamente nenhum dos sintomas.

No entanto, tinha presente que no dia em que quisesse engravidar podia não ser fácil e por isso resolvi deixar de tomar a pílula assim que começámos a pensar em ter filhos. Apesar dos ciclos irregulares, engravidar foi muito mais fácil do que pensei – mesmo! Claro que foi uma benção e não pensei mais no assunto até uns meses depois do Lourenço ter nascido.

Depois de ter parado de amamentar, quando o Lourenço tinha 6 meses, resolvi não fazer qualquer contracepção para perceber como (e se) estavam a funcionar os ovários, até porque sabíamos que queríamos ter mais filhos e gostávamos que não tivessem uma grande diferença de idades. Passaram-se meses e nada – nem sinais de vida dos meus ovários. Estavam preguiçosos, adormecidos, o que quisermos chamar-lhes. Foi aí, numa consulta de ‘rotina’, que tive o diagnóstico oficial, que viria depois a ser confirmado através de outros exames.

Cada caso é um caso e poderia estar aqui a descrever o que se passou ao longo dos (longos) 12 meses seguintes. Quem tem isto e quer engravidar sabe o quão desanimador pode ser. A expectativa, todos os meses, de ovular. A tentativa de adivinhar a duração dos ciclos. Os testes de ovulação (que são uma fortuna!). Não se poder considerar sequer que se está a ‘tentar’ engravidar, porque simplesmente não há ovulação. Sentir que o corpo não responde, nem com a ajuda de alguns métodos, dos mais naturais aos mais ‘médicos’.

O final desta história é feliz, e é também por isso que a trago: quando menos esperava, consegui engravidar. Pelo meio de vários tratamentos e muitas peripécias, engravidei (quase) naturalmente. E este quase é só porque, em ambos os casos (primeira e segunda gravidez), associo o facto de ter tomado a pílula ao desencadeamento da ovulação (mas isso foi no meu caso, não quer dizer que seja a solução para todos os casos).

É importante também fazer uma ressalva: tipicamente, esta síndrome associa-se a mulheres com excesso de peso, pelos em excesso e problemas de acne, mas nem sempre estas manifestações estão presentes (como no meu caso e de várias amigas e mulheres que conheço e que também têm SOP). Um estilo de vida mais saudável, a prática de exercício físico, diminuição de níveis de stress, um IMC saudável, são apenas algumas das coisas que podemos (e devemos) fazer em primeira linha. Um corpo equilibrado e em bom funcionamento será sempre mais favorável a que tudo o resto aconteça.

 

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Photo by Annie Spratt on Unsplash

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Escrito por: Francisca

Alfacinha e fã assumida da sua cidade. Nasceu e cresceu em Lisboa e embora adore sair e viajar, gosta sempre de voltar. Gosta de dias de sol, flores campestres, coisas imperfeitas e mergulhos no mar. Ler mais.

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